Dores crônicas: herança do mundo moderno, dizem especialistas

Dores crônicas: herança do mundo moderno, dizem especialistas

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Dor crônica pode surgir com combinação de estresse, sono irregular e sedentarismo

A auditora fiscal aposentada Selma Cavalcante, 73, sofre com dores há mais de trinta anos, quando foi diagnosticada com fibromialgia. Mesmo tomando medicamentos, não conseguiu se livrar do problema que afetou diretamente sua qualidade de vida. Era uma pessoa ativa, gostava de dançar e caminhar; depois que contraiu a enfermidade, tem dias que sente até dificuldades para levantar da cama. Recusa convites das amigas para sair e fica em casa, triste, se questionando pelo próprio sofrimento.

Selma faz parte de um universo de 37% dos brasileiros que sentem dor crônica, de acordo com pesquisa divulgada pela Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED) durante o 4º Congresso da Sociedade Brasileira de Médicos Intervencionistas em Dor (Sobramid), realizado em julho passado, em Campinas, no interior paulista.

O ortopedista potiguar Narcisio Nascimento explica que a dor crônica pode surgir quando há combinação de tensão, estresse, sono irregular e sedentarismo. “A tensão impede que o sangue circule no músculo, causando acidose que leva à dor”, afirma. Especialista em fibromialgia, ele conta que a recorrência dessas situações cotidianas acarreta num quadro de dor localizada em três ou mais locais do corpo, sendo as manifestações mais comuns na região miofascial (músculo e face).

Segundo Nascimento, o surgimento da dor crônica se dá numa espécie de circulo vicioso. “Quem está sempre estressado por causa do trabalho, dorme mal e não pratica exercícios, o corpo para de produzir hormônios fundamentais como a somatotropina (hormônio do crescimento), serotonina (hormônio da alegria) e endorfina (hormônio do prazer), levando o paciente a um estado de insatisfação, tristeza e dores fortes por todo o corpo”, explica.

O médico afirma que a dor crônica é mais uma herança do mundo moderno, onde a atividade física foi substituída pelo computador e celulares, o trabalho é cada vez mais automatizado e a cobrança da sociedade vem de todos os lados. “Você não vê um cantor famoso com dores crônicas. Ele pode ter o estresse da rotina, mas tem o beneficio de um bom sono, segurança financeira, diversão, atividade física”, comenta o especialista.

Narcisio Nascimento revela que o quadro de dor crônica ainda não pode ser observado por exames laboratoriais ou de imagem. “Assim como o corpo produz a dor do luto, que é real e dolorosa, as dores crônicas são diagnosticadas através do diálogo entre médico e paciente”, ensina, falando por experiência própria sobre o tratamento que ministra em seu consultório.


Gustavo Xavier
Gustavo Xavier, psiquiatra: relação entre dores crônicas e depressão

Dor, um caminho para a depressão

Estudo do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) mostra a relação bidirecional entre ansiedade ou depressão e algumas doenças físicas crônicas. O levantamento mensurou essa relação em pessoas adultas residentes na Região Metropolitana de São Paulo e mostra dados preocupantes. O resultado do estudo é que indivíduos com transtornos de humor ou de ansiedade tiveram incidência duas vezes maior de doenças crônicas.

O psiquiatra Gustavo Xavier, presidente da Associação Norte-rio-grandense de Psiquiatria, afirma que 60% dos pacientes com quadros depressivos e ansiosos adquirem dores crônicas. “Uma das hipóteses está relacionada à questão de comportamento. As pessoas ficam inativas quando têm depressão, isso causa dor, ou então a própria dor muda a vida da pessoa, leva à falta de atividades físicas, o que aumenta a depressão e fica um círculo vicioso”, explica Gustavo Xavier.

Psiquiatra há mais de 17 anos, Xavier ressalta que o problema precisa receber mais atenção das autoridades e gestores da área da saúde pública. “A depressão leva o paciente ao isolamento, à inatividade e aos baixíssimos índices de hormônios como serotonina, dopamina, noradrenalina, endorfina, dentre outros, levando a um cenário propenso a quadros de dores”, atesta.

Ele avalia que a situação de saúde mental do depressivo e ansioso já está prejudicada pelos baixíssimos índices hormonais, levando ao agravamento do caso doloroso. Na sua opinião, é preciso fazer mais pesquisas com foco na interação entre depressão, ansiedade e doenças físicas crônicas para elucidar os mecanismos pelos quais se originam as doenças. “Para descobrir esses mecanismos precisamos de mais estudos. O que a gente vê é uma associação grande, mas qual é o mecanismo exatamente a gente ainda não conhece”, defende o presidente da Associação Norte-rio-grandense de Psiquiatria .


Narcisio Nascimento
Narcisio Nascimento, ortopedista: atividade física é a maior prevenção 

Fibromialgia é mais comum em mulheres

A fibromialgia é mais frequente no sexo feminino, que corresponde a 80% dos casos. É rara em pacientes com boa musculatura e atletas. Em média, sua incidência ocorre entre 22 e 37 anos, sendo a idade de seu diagnóstico, mais frequente, entre 34 e 57 anos. “É cada vez mais comum chegar ao consultório pacientes na casa dos 20 anos com queixas de dores que perduram meses. Os elementos eu já percebo na consulta: estresse, sedentarismo, distúrbios de sono e ansiedade”, relata o ortopedista Narcisio Nascimento.

Como no exame físico não são encontrados achados caracteristicos, foram propostos, em 1990, critérios que são adotados internacionalmente para o diagnostico da fibromialgia. Esses critérios baseiam-se na presença de dor generalizada e de pontos padronizados que são pesquisados pelo médico. É muito frequente o paciente relatar dificuldade para dormir, o que resulta em sonolência diurna, quadro este de sono não restaurador, onde o paciente acorda pela manhã com a sensação de que não descansou, sobrecarregando ainda mais os músculos e pontos dolorosos.

Sobre o tratamento e cura das dores crônicas, o especialista Narcisio Nascimento afirma que há um conjunto de procedimentos. “É necessário antes de tudo que o paciente entenda que sua dor é advinda de um conjunto de erros em sua rotina. Um psicólogo ou psiquiatra é fundamental para aliviar o quadro de tensão e receitar antidepressivos e reguladores de sono; um educador físico é fundamental para fortalecimento muscular, e o acompanhamento médico com um ortopedista, médico da dor ou reumatologista, para receitar medicação”, explica Nascimento.

O médico ainda salienta que atividade física é a maior prevenção de dores. “O exercício produz altas doses hormonais, corrige a postura, fortalece a musculatura, previne o envelhecimento e previne doenças. Não adianta dizer que não tem tempo pra se exercitar”, cita o médico.

Não disso, contudo, contribuiu para amenizar o padecimento de Selma Cavalcante, personagem citada na abertura da reportagem, que preferiu não ser fotografada.