Ex-criminoso agora trabalha na recuperação de ex-detentos

Ex-criminoso agora trabalha na recuperação de ex-detentos

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Luciano Soares virou capelão e coordena projeto de recuperação de ex-detentos

A farta crônica policial do anos de 1990 rendeu ao Rio Grande do Norte vários personagens icônicos, que ganharam os noticiários com a fama de serem cruéis e perigosos. Dentre eles, figurava Gabiru, assaltante, traficante e matador. O medo não era característica que coubesse nos atributos do bandido. Até o dia em que ele, preso no Caldeirão do Diabo, passou a temer ao seu Deus.

Longe das atividades criminosas há 15 anos, Luciano Nascimento Soares, ex-Gabiru, agora coordena um projeto de recuperação de dependentes químicos e ex-detentos que buscam uma vida distante da ilicitude.

Luciano conta que começou a participar do tráfico de drogas ainda aos 12 anos de idade. Nascido e criado em Mãe Luíza, o garoto virou aviãozinho. Trata-se do nome dado aos moleques que auxiliam os traficantes no dia a dia, avisando sobre a chegada da polícia ou entregando drogas.

“Depois de avião de droga, eu passei a ser um dos traficantes do bairro, ainda na adolescência”, recorda.

Aos 18, Luciano começou a participar de quadrilhas de assalto dentro e fora do Rio Grande do Norte. “A partir daí eu me aprofundei na situação e passei a trazer droga dos estados vizinhos para dentro do Rio Grande do Norte”, relata.

Luciano Gabiru era responsável por abastecer de entorpecentes os bairros periféricos de Natal. Passou a ser uma peça importante para a rede do tráfico de drogas e um dos homens mais procurados do estado.

A polícia estava sempre na cola de Luciano. Certa vez, ele conta, foi alvejado durante uma troca de ticos com policiais. Um dos disparos atingiu a cabeça, outro a bacia e o terceiro acertou o braço. “Tenho uma bala alojada no fêmur. Hoje não sou aleijado por um milagre de Deus”, afirma.

O tiroteio aconteceu no final da década de 1990. Ferido, Luciano Nascimento foi levado ao Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, de onde armara um plano de fuga operado por sua quadrilha, que já o aguardava do lado de fora da unidade hospitalar.

Depois de recuperar a consciência e  os movimentos, Luciano arquitetou a fuga. Pulou do terceiro andar do hospital e pegou carona nos veículos guiados por seus cúmplices, que já o esperavam do lado de fora.

A ideia era levar o foragido, que ainda se recuperava dos ferimentos, até um esconderijo em que ele pudesse descansar até estar completamente curado. Depois Gabiru retomaria suas atividades criminosas.

O bando o conduziu até o lugar chamado por eles de ilha. É um pedaço de terra dentro da região de mangue que circunda o Quilômetro Seis, na Zona Oeste de Natal. O local serviria de abrigo até que as coisas se acalmassem.

Um conhecido farmacêutico do bairro do Bom Pastor foi levado pela quadrilha até a ilha. A ordem dada ao homem era de prestar os cuidados de saúde a Gabiru, para que este pudesse se recuperar bem e logo.

“Na ilha eu fiquei aos cuidados desse farmacêutico, e ali eu tive que passar de 2 a 3 meses naquela situação. Ele levava para mim uma antitetânica, uma anti-inflamatória e uma pinça, que eu mesmo usei para tirar os vestígios da minha cabeça. Passei por momentos difíceis de dor e febre”, lembra.

Recuperação na ilha

Foram mais de dois meses na ilha, esperando recuperação. Luciano conta que, lá mesmo, recebeu o convite para participar de um grande roubo. Seria um dos maiores que já havia praticado.

O ex-presidiário não deu detalhes sobre a ação, porém afirmou que ocorreria na região da Chapada do Apodi. Luciano Nascimento foi mais uma vez baleado e, mais uma vez, conseguiu fugir.

Debandou-se para a Paraíba, Mamanguape, por onde passou um tempo até retornar a Natal. “Aí a fama já havia corrido. Eu sou o ex-Gabiru, um elemento que, na época, era de alta periculosidade, onde toda a polícia tinha vontade de colocar as mãos sobre a minha vida”, lembra.

Luciano Nascimento conta que, em 1998, morreu em confronto com a polícia um famoso bandido que tinha como reduto a Comunidade do Japão. Paulista, como era chamado o homem, foi alvejado por mais de 130 tiros. “E depois disso mandaram o recado pra minha mãe dizendo que eu seria o próximo”, relembra Luciano.

Nesse tempo o então Gabiru havia pendurado as chuteiras do assalto. Voltou a traficar em Mãe Luíza, por conta dos recorrentes assaltos e tiros que levara dos policiais quando estava em atividade na quadrilha de assaltantes. Só que agora conseguira um posto maior dentro da criminalidade, e tinha por direito uma maior quantidade de entorpecentes para comercializar.

“Certo dia, na Rua São Pedro, eu colocava uma lona daquelas de vinolia, quando, de repente, me deparei com os policiais do Choque. A ordem que tinha era para ceifar a minha vida, da mesma forma que ceifaram a do Paulista”, relata.

Por sorte de Gabiru, dentre os PMs havia um que era pastor, o oficial que comandava a incursão. “Ele disse ‘não façam nada com este homem, porque Deus tem algo muito grande na vida dele. Através da vida dele, muitas almas vão se render aos pés do Senhor”.

Depois da prisão, Luciano Nascimento Soares teve o destino de todos os bandidos perigosos que eram detidos naquela época: foi morar no Caldeirão do Diabo, a antiga Penitenciária João Chaves.

Crônica policial

Já encarcerado, Gabiru passou a conceder entrevistas aos famosos repórteres policiais do estado. Jota Gomes, do Aqui Agora, e também Salatiel de Souza e o jornalista Inaldo Farias entrevistaram o famigerado assaltante e traficante dentro da cadeia.

No Caldeirão do Diabo, Luciano Gabiru foi recebido pelo Trio Ternura: Naldinho do Mereto, Demir e Paulo Queixada. Os três eram os homens mais temidos do Rio Grande do Norte, pela atrocidades que faziam com seus algozes e vítimas.

“Eu presenciei muitas cenas violentas, muitas maldades. Ali era um palco sanguinário de pessoas que eram desconjuntadas, pessoas que um dia achavam que eram heróis, mas hoje estão morto. Eu aprendi o valor de uma alma, o valor de uma vida observando toda aquela situação”, recorda.

No  Caldeirão, Luciano Nascimento conviveu também com Flávio Monstro, Robinho do Igapó, o assaltante Dorian, Paulo do Detran, Areinha, João Maria Gordo, homens que fizeram o terror da população potiguar. “Alguns que ainda estão presos até hoje”.

Lá dentro Gabiru continuou a traficar drogas. Desde aquela época já havia esse tipo de clandestinidade dentro das unidades carcerárias do Estado.

Também já havia grupos de evangélicos que se reuniram para celebrar cultos e tentar convencer os apenados a deixar de lado o crime.