'Gabiru' teve primeiro contato com a religião dentro da prisão 

'Gabiru' teve primeiro contato com a religião dentro da prisão 

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Luciano 'Gabiru' na época em que estava hospedado no Caldeirão do Diabo

Ex-presidiário e coordenador de um projeto voltado à recuperação de dependentes químicos e ex-detentos, Luciano Nascimento Soares, que ficou conhecido no submundo do crime como "Gabiru', conta à reportagem do NOVO que seu primeiro contato com a religão aconteceu dentro da cadeia. Certa vez, revela, um trio de religiosos, duas mulheres e um homem, se aproximou da carceragem em que ele estava preso na Penitenciária João Chaves, na Zona Norte. Dias antes havia ocorrido uma rebelião, comandada pelos famosos bandidos Naldinho e Demir, que deixara marcas no corpo de Luciano.

Ensanguentado, ele viu os três chegarem perto. Uma das senhoras, então, como dedo em riste, dirigiu-lhe a palavra, proferindo versos bíblicos.

“Ela botou o dedão na minha cara e eu disse: a senhora sabe com quem tá falando, véia?’ E ela olhou pra mim e disse: ‘não interessa, quem me mandou entregar esse recado foi Deus’”, lembra.

Segundo Luciano, ele então pediu para que um colega de prisão lhe acendesse um “baseado da grossura de um papel de Vitamilho”, para fumar na frente dos que ali pregavam a Bíblia cristã.

“Mas uma fraqueza se botou sobre minhas pernas e eu não consegui fumar aquela maconha. E uma voz bradou lá de dentro daquela galeria dizendo ‘homem, tu respeita a minha serva, porque minha serva é profeta e ela tem dom’. E aquilo ficou sobre a minha cabeça a noite toda. Foi uma noite que era o céu e o inferno”.

Dias depois, foi até a cadeia um velho conhecido de Luciano. José Wantuil Carneiro, Wanzinho Carneiro, que participara do histórico assalto da emergência. Acompanhado de familiares, Wanzinho roubou 90 milhões que foram enviados pelo Governo Federal para o combate à seca.

No entanto, naquele tempo Wanzinho havia se convertido cristão Evangélico, e foi o relato dele que convenceu Gabiru a também aderir à religião. José Wantiul já estava na rua e ia pregar dentro das penitenciárias.

Passados três anos e seis meses que estava no Caldeirão do Diabo, a Penitenciária Estadual de Alcaçuz, recém inaugurada, deveria receber Luciano em breve como novo inquilino. “Pela má conduta, porém, não cheguei nem a entrar em Alcaçuz. De lá me mandaram para o Pereirão (presídio), em Caicó”, afirma.

A transferência ocorrera na mesma época em que Wanzinho fora acusado de ser o dono de armas sem porte que foram encontradas dentro de um sítio em que ele estava. Segundo afirma Luciano, ele não teria nada a ver com a história, mas o passado criminoso o condenara antes mesmo da sentença. O Carneiro voltou à prisão

 

Cela de castigo

Ao chegar ao Presídio de Caicó, Luciano Nascimento foi conduzido a uma cela de castigo, para onde iam todos os presidiários para lá encaminhados. A triagem durava 30 dias. Dentro da cela, ele afirma, passou a orar e pedir ajuda a Deus. Luciano Nascimento diz também ter ouvido uma voz que o ordenava não temer.

“Foi aí que eu senti uma coisa gostosa e comecei a falar em uma língua que jamais eu imaginaria que seria um batismo com um espírito santo. O barulho de línguas estranhas era muito grande, que até os policiais que estavam na guarida se comoveram. Eles me tiraram daquela cela e me colocaram no pavilhão”.

No pavilhão, Luciano diz ter começado a pregar o evangelho cristão, momento em que também fundou um grupo chamado Libertos em Cristo.

“Ali foi feito uma igreja, junto com o pessoal católico, e ficou culto da igreja católica e culto da Assembleia de Deus dentro daquele sistema prisional. O período que passei lá foi só para crescimento da obra”, acrescenta.

Luciano Nascimento Soares foi novamente transferido. Desta vez para perto de casa. Entretanto, estava entregue de volta ao Caldeirão do Diabo.

Nesse tempo, quem mandava por lá era Edmilson Brinquedo do Cão. “Eu não entendia a minha ida para aquele lugar”, disse. Era 2002. Luciano recorda que foi procurado por Brinquedo do Cão, que lhe afirmou que todas as dívidas que ele tinha com o crime foram perdoadas. Isso porque Luciano Gabiru agora era “crente”. “Ele disse ‘se tu é crente mesmo aí, as tuas dívidas tão perdoadas”.

Ele afirma, inclusive, que depois de ter realizado um culto na quadra da unidade, o próprio Brinquedo do Cão, além dos bandidos Dorian, Beto Jamaica e Cara de Jaca se converteram à religião. “Mas infelizmente se desviaram e se enveredaram para outros caminhos. Quando saíram não permaneceram na fé. Esses homens tiveram a vida ceifada”.

 

Projeto Resgatando Vidas

Luciano Nascimento Soares  atualmente é um capelão credenciado pela Igreja Evangélica. Há 15 anos se converteu cristão. Hoje ele coordena o Projeto Resgatando Vidas, que mantém em Macaíba um sítio para cuidar de pessoas com dependência química e/ou envolvidas com crimes, que pretendem um recomeço.

O projeto tem três anos desde sua fundação, e também sai às noites dando comida a moradores de rua, alimento que conseguem através de arrecadação. O Resgatando Vidas também não tem apoio governamental e sobrevive de doações. Luciano também coordena um trabalho dentro do sistema prisional. “Um camarada que muitas vezes entrava ali de cabeça baixa, levando tapa, hoje entra ali de cabeça erguida, levando a mensagem”, destaca.

Durante as rebeliões de janeiro em Alcaçuz, Luciano e mais congregados realizaram um culto com um carro de som do lado de fora da unidade carcerária. “Muitos deles aceitaram a Jesus”, garante.

Na granja onde funciona o projeto Resgatando Vidas, os internos realizam atividades ocupacionais e diariamente mantêm contato com a prática religiosa. O NOVO esteve lá e todos os personagens que foram alvo da série Memórias do Cárcere moram no sítio. Ao todo são 20 internos. Luciano pede que as entidades do governo olhem mais para o projeto, que às vezes tem dificuldade para se manter. “Eu tenho o maior orgulho, porque, quando eu saio com eles na rua, as pessoas não me olham mais apontando, me veem como um exemplo”, comemora.