Histórias e declarações de amor pelos pais

Histórias e declarações de amor pelos pais

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Jadeanny Arruda conta a história do pai que sonha junto com ela. Ou ela que sonha junto com ele? (Foto: Arquivo pessoal)

Em primeiro lugar, feliz Dia dos Pais! É o que se comemora neste domingo. A edição deste final de semana apresenta histórias enviadas pelos leitores sobre seus pais. O NOVO agradece a quem participou dessa ação e compartilha com todo os leitores essas homenagens, algumas alegres outras tristes; umas mais longas outras mais curtas, mas todas com algo em comum: o amor pela figura paterna. O (s) autor (es) do depoimento escolhido por votação entre os profissionais da redação do NOVO vai participar de uma entrevista na segunda-feira (14) ao vivo, às 18h, na Sodiê Doces, na avenida Prudente de Morais, 1869, Barro Vermelho.  

"Meu pai também foi o responsável por despertar em mim o encantamento por histórias"

Jadeanny Arruda

Quando minha mãe descobriu que estava grávida de mim, meu pai tinha 20 anos. Estava finalizando o ensino médio. Popular, líder estudantil, cheio de sonhos. Eu fui o susto dele, o espanto, surpresa que a vida pregou. A surpresa boa, ele diz. Ao saber que minha mãe estava grávida, ele passou a me incluir em seus sonhos, a sonhar comigo, a desejar ser pai. Três anos após meu nascimento, minha mãe escolheu viver a vida de uma outra maneira, escolheu se separar e alcançar outras metas de vida, a surpresa é que eu ficaria com meu pai. Com a separação, minha guarda definitiva ficou com ele. 23 anos, uma filha e tantos outros sonhos. Longe de todos os holofotes, meu pai acordava todos os dias às 3h da madrugada, se vestia e ia trabalhar de cobrador de ônibus, antes de ir, sempre passava para deixar o beijo delicado para não me acordar. Meu pai sempre quis ser historiador, mas havia deixado o plano no fundo da gaveta da memória para cuidar de mim. A longa jornada de trabalho do meu pai não o impedia de cumprir as obrigações escolares e afetivas. Ao chegar era ele quem revisava minhas atividades, assinava a agenda e participava das festas e reuniões escolares. Quando doente, era ele quem me levava ao hospital e segurava minhas mãos quando a tão temida agulha estava a caminho, foi ele quem me ensinou a recuar para ir mais a frente, a sonhar e a enfrentar meus medos.

Meu pai também foi o responsável por despertar em mim o encantamento por histórias. Todas as noites, religiosamente, ele deitava na cama comigo e passava horas narrando histórias, não de princesas ou contos de fadas, mas história de mulheres fortes e corajosas, lendas da cidade, criações de sua cabeça pisciana. Quando seu repertório de histórias estava acabando, ele pedia que eu criasse uma história e foi assim que nós criamos nossa própria história de amor e cumplicidade.

Meu pai também cozinha, faz como ninguém os meus pratos favoritos: arroz com carne de charque e churrasco. Não tem programa de TV, mas faz com destreza e carinho o prato que me faz feliz. Alimentar a cria é muito mais que fisiológico para ele, é afetivo. Na periferia em que nasceu, no bairro do Bom Pastor, zona oeste de Natal, ele é conhecido como professor Alexandre, e se orgulha de ser chamado assim. Não é o título, mas o significado, na sala de aula da minha vida ele é muito mais que professor, ele é educador. Com muito esforço realizou seu sonho de ser historiador, e hoje, é estudante de Produção Cultural no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), me ensina a nunca parar e a sonhar. Quando sonho eu sei que ele vai estar ao meu lado seja para me abraçar, independente do resultado. No nosso abraço o conforto de saber que o coração dele estar bem pertinho do meu.

Mesmo único, Alexandre Arruda, pai de Jade ou professor Alexandre, é um dos tantos pais negros, moradores de periferia, estudantes, profissionais que todos os dias lutam para dar a seus filhos o seu melhor. Não faz mais do que sua obrigação. Não viram meme na internet, não viram produto da mídia, mas marcam profundamente a vida de quem convive por seu amor e dedicação. Quem acha que Rodrigo Hilbert quebra os padrões hoje, é porque não conhece a história do meu pai, que se entrelaça com a minha e a de tantos outros e que de tantas histórias bonitas que conto hoje e que ele já contou para mim, a nossa é a minha favorita. Sem privilégios, mas cheia de afeto.