Natal é trampolim para facções criminosas comercializarem drogas

Natal é trampolim para facções criminosas comercializarem drogas

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Bandeira do Sindicato do Crime, parceiro do Comando Vermelho no RN 

“A justiça começa na delegacia”. Assim o delegado de Polícia Civil do Rio Grande do Norte Marcuse Cabral dá o tom da entrevista, para confirmar logo em seguida: a guerra entre facções criminosas no estado é evidente, está mais forte do que nunca e mais: é uma luta por domínio de território para o tráfico de drogas. O adjunto da Divisão Especializada de Combate ao Crime Organizado (Deicor) destaca que o estado, mais especificamente Natal e cidades vizinhas, é estratégico para o comércio ilegal de entorpecentes.

No contexto de disputa de poder, o território potiguar tem uma participação primordial que faz com que as organizações criminosas tenham um interesse especial. O estado é o mais próximo do Brasil em relação à Europa, o que o torna como um ponto-chave na rota da droga. Tal qual aconteceu na Segunda Guerra Mundial, quando Natal – e Parnamirim – era chamada de o “Trampolim da Vitória” pelos norte-americanos por ter uma localização privilegiada, hoje o tráfico também enxerga a cidade e seu entorno como locais estratégicos, um verdadeiro “trampolim das drogas”, com destino direto para o comércio europeu.

“Por que o RN chamou a atenção das organizações criminosas do Sudeste: o PCC e o Comando Vermelho? Porque o RN é uma rota de escoamento do tráfico de drogas. Verificamos que, na verdade, Natal é a área do Brasil mais próxima da Europa, e aquele continente é um centro demandante de entorpecentes. O nosso estado está na rota do tráfico de drogas, o que traz o interesse de várias facções em atuar aqui”, afirmou Cabral.

O delegado explica que as facções criminosas, hoje, são organismos transnacionais, que possuem negócios fora dos estados e do país. Na Europa, Portugal e Espanha são dois dos grandes destinos da droga que sai do Porto de Natal e do Aeroporto de São Gonçalo do Amarante. No estado, quem de certa forma representa o Comando Vermelho, organização com forte atuação no Rio de Janeiro e que rivaliza com os paulistas do Primeiro Comando da Capital (PCC), é o Sindicato do RN.

Fundada em 27 de março de 2013, segundo Marcuse Cabral, o grupo potiguar é uma espécie de parceiro do Comando Vermelho no RN. Rivalizando com o PCC no território local, o Sindicato representa também os interesses do CV. “As duas facções operacionalizam o tráfico de drogas no estado. A gente percebe que o RN é visado primeiro pela proximidade geográfica com a Europa, e segundo pela quantidade de drogas apreendidas em duas das principais cidades do estado: Natal e Mossoró”, explicou o delegado da Deicor, que não quis ser fotografado nesta entrevista.

Dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa Social (Sesed) apontam que somente a Polícia Militar apreendeu, nos primeiros sete meses do ano, 55,58 quilos de drogas, sendo: 7,198 kg de cocaína, 4,545 de crack e 43,841 de maconha. O mês com maior quantidade de apreensões foi julho, com mais de 25 quilos.

Chegando no continente europeu, a droga se pulveriza. Daqui, os traficantes aproveitam brechas na fiscalização no porto ou aeroporto, afirma Marcuse Cabral. “Toda zona de fronteira é importante, tanto para o tráfico de armas quanto para o de drogas, fontes de financiamento para essas facções. O RN entra nessa rota por ser o estado mais próximo da Europa para fazer o escoamento ilegal de entorpecentes via aérea ou marítima”, ressaltou.

A polícia, diz o delegado, apesar das dificuldades de efetivo e investimento governamental, tem buscado inibir a atuação das facções. Ações integradas com a Polícia Civil de outros estados e a Polícia Militar tem ocorrido na tentativa de prender membros e frustrar ações das facções. O delegado chama a atenção para a necessidade de se investir em estrutura para as polícias, sobretudo a Civil, e contratar mais policiais, visto que atualmente a instituição trabalha com 20% do efetivo.

Armas são traficadas do Paraguai

O delegado Marcuse Cabral diz que a maioria das armas usadas pelas facções criminosas Brasil afora vem do Paraguai, por meio de negócios escusos entre grupos brasileiros e paraguaios: “Não são armas fabricadas no Paraguai, mas aquele país é um distribuidor. Especialmente o PCC tem uma ligação forte com traficantes no Paraguai, então a maioria dessas armas (fuzis, ponto 50, pistolas ponto 40) são trazidas pelo tráfico ilegal”.

Recentemente, uma informação de que o PCC de São Paulo estaria preparando uma ofensiva na Grande Natal contra o Sindicato do RN tomou as redes sociais e grupos de Whatsapp. Questionado, o delegado da Deicor negou que haja informação do tipo, ao menos no radar das equipes de inteligência da Divisão ou da Sesed: “Não temos nada que indique de uma maneira concreta a veracidade dessa informação. Como já disse, temos essa guerra, mas não porque expoentes morreram, mas sim pelo lucro, pelo domínio de território. Essa guerra vai continuar e cabe ao Estado por um fim nela”.

O delegado adjunto da Deicor ainda chama a atenção para a utilização hoje do Whatsapp como meio de disseminação do pânico por parte do crime organizado.

“É uma ferramenta universal de comunicação, usado inclusive pelas facções criminosas. As mensagens são difundidas por uma velocidade inimaginável. O Whatsapp facilita o alastramento de mensagens de facções e com isso um pseudo terror. Muitas vezes as notícias são inverídicas e o cidadão, sem verificar as fontes, começa a reproduzir um boato. Isso gera um pânico totalmente desnecessário, que é o objetivo de algumas dessas mensagens”, destaca.

Os policiais são alvos específicos dos criminosos? O delegado entende que as forças de segurança devem fazer o seu trabalho institucional: combater e reprimir o crime e, por isso, todo agente de segurança é inimigo de membros de facções criminosas, e inimigo de uma maneira profissionalizada e não pessoalizada. “Não é uma questão de ser alvo ou não, o fato é que os agentes de segurança cumprem sua função e assim se colocam em rota de colisão com toda a marginalidade”.

Tráfico, bancos e roubo de cargas financiam as organizações

O tráfico de drogas é o carro-chefe das facções criminosas. Mas não é a única fonte de financiamento do crime organizado. Ao menos outros dois crimes completam o pódio e formam uma verdadeira tríade para o fornecimento de dinheiro para os criminosos.

“São três tipos de financiamento: o principal é o tráfico de drogas, o segundo é o roubo de bancos, depois vem o roubo de cargas. Se um grupo criminoso é filiado a uma dessas facções e comete um delito, uma porcentagem do lucro é transferido à facção como forma de pedágio”, listou o delegado Marcuse Cabral.

Nesse ponto, ele chama a atenção para que cada cidadão se conscientize de sua responsabilidade também no combate ao crime organizado. Marcuse Cabral diz que até o negócios mais simples como a venda de botijão de gás clandestina, a instalação de “gatos” para energia elétrica e o consumo de drogas são formas de financiamento às facções criminosas.

“Não cabe atribuir culpas em virtude da ausência de investimentos em mais de 30 anos. Não é culpa de um governo específico, mas de todos os que passaram e não investiram no sistema penitenciário e na segurança pública”, defende o delegado.

E acrescenta: “Mas é possível atribuir responsabilidades e todos nós somos responsáveis por tentar deter a onda de criminalidade decorrente da guerra de facções. Todo cidadão que consome droga, internet pirata, compra gás de maneira não regulamentada, que faz ‘gato’ de energia ajuda o financiamento das facções”.

Finaliza dizendo que, “na maioria das vezes, quem organiza esses serviços marginais são as facções criminosas”, dai o alerta oportuno.