Nicholas, 7 anos, ganha coração novo para continuar vivendo

Nicholas, 7 anos, ganha coração novo para continuar vivendo

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O pequeno Nicholas Araújo, potiguar de apenas 7 anos, estava em primeiro lugar na lista de espera por um novo coração. Para conseguir o transplante, o menino foi levado às pressas para Brasília no início de novembro e foi lá, na capital do país, que coincidentemente ele recebeu na última terça-feira (27) o órgão de um doador conterrâneo.
 
Nicholas foi diagnosticado com miocardiopatia restritiva há aproximadamente um ano. A doença muscular enrijece o coração e dificulta a circulação sanguínea. A principio, o problema foi tratado com medicação, mas em outubro deste ano o pequeno sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC), o que sinalizava a agressividade da doença.
 
“Quando ocorreu o AVC, levamos ao hospital e os médicos conseguiram reverter o quadro, mas constataram que ele precisava de um transplante”, explica o pai de Nicholas, Giovanni Dmitri Arimatea, tecnico jurídiciário da Justiça Federal em Natal.
 
 
A partir desse momento, portanto, Nicholas foi colocado em primeiro lugar na fila de transplante entre as crianças de 12kg a 45kg em função da gravidade do seu problema.
 
Entretanto, o estado do Rio Grande do Norte não realiza transplantes de coração desde 2009. Os pais tentaram uma vaga em Fortaleza, mas não conseguiram interná-lo por questões burocráticas. O menino precisou ser transferido para Brasília, onde ficou internado no Instituto de Cardiologia do Distrito Federal por pouco mais de um mês enquanto esperava por um novo coração.
 
“Ele ficou internado na UTI, tomando medicação 24h por dia. A única coisa que mantinha ele vivo era a medicação. Foi um momento muito angustiante porque é uma situação que não depende de nós. Pode demorar algumas horas para aparecer o doador, mas pode demorar meses e não sabíamos quanto tempo os medicamentos conseguiriam manter o coração dele batendo”, relata Giovanni de Brasília, por telefone.
 
A espera de Nicholas e sua família teve fim na última terça-feira, quando o presente de Papai Noel aguardado por todos chegou exatamente de Natal: o coração de um doador potiguar. A coleta do órgão foi realizada no Hospital Infantil Varela Santiago. Na ocasião, o centro cirúrgico do hospital fez uma coleta múltipla de órgãos, que deve salvar a vida de Nicholas e de mais três pessoas.
 
O doador foi uma criança de 10 anos que faleceu na última segunda-feira (26) em decorrência de um tumor cerebral, um dia após seu aniversário. Em respeito à perda da família, a direção do hospital decidiu preservar detalhes sobre a identidade e a história do doador.
 

// Alexandre Borges (ocu) e José Hipólito: médicos da coleta de órgãos

// Alexandre Borges (ocu) e José Hipólito: médicos da coleta de órgãos
// Alexandre Borges (ocu) e José Hipólito: médicos da coleta de órgãos
 
Além do coração doado aNicholas, o procedimento também coletou rins, fígado e córneas. O fígado foi levado para Fortaleza (CE), um dos rins foi para Recife (PE) enquanto o outro foi para Porto Alegre (RS) e as córneas permaneceram no estado.
 
O procedimento realizado para a coleta dos órgãos do doador, entre eles o coração que hoje bate no peito Nicholas, durou cerca de 2h e “foi um sucesso”, de acordo com o urologista José Hipólito Dantas, que participou da intervenção. Além dele, a equipe do Varela Santiago contou ainda com quatro enfermeiras, três técnicos em enfermagem e outros cinco médicos: dois cirurgiões cardíacos, um cirurgião do aparelho digestivo, um oftalmologista e um anestesista. 
 
Para garantir que o transporte para Brasília do órgão coletado em Natal ocorresse sem imprevistos, as ruas da cidade foram interditadas. Isso porque o coração é uma dos órgãos mais difíceis de serem transplantados devido ao tempo que resiste fora do corpo humano. O tempo máximo entre a coleta e o transplante é de 6h, mas a recomendação é de que o procedimento seja feito em 4h.
 
Aparato policial e ruas interditadas
 
Para viabilizar a chegada do órgão no período recomendado, uma viatura da Central de Transplantes levou o coração do doador até o Hospital da Polícia Militar, no Tirol, de onde seguiu em helicóptero até a Base Aérea, sendo de lá transportado em avião da Força Aérea Brasileira diretamente para Brasília.
 
O órgão chegou na capital do país por volta das 17h de terça-feira. A cirurgia ocorreu dentro do esperado e agora Nicholas está no internado no pós operatório. O menino deve permanecer cinco dias na UTI e entre 45 e 60 dias internado em um apartamento no hospital.  Após receber alta, ainda deve ficar um ano vivendo em Brasília devido a necessidade de exames frequentes e acompanhamento médico. 
 
“Ficamos tão felizes com a notícia que ainda não pensamos em como vai ser. Esse período em Brasília é uma coisa que podemos resolver, enquanto o transplante era uma coisa que não dependia de nós”, conta o pai de Nicholas.
 
Os outros órgãos coletados pelo Hospital Infantil Varela Santiago seguiram em aviões comuns por terem mais tempo entre a coleta e o transplante. O fígado, por exemplo, suporta em média 12h, enquanto os rins podem esperar em torno de 36h. 
 
Os médicos que fizeram a coleta e a diretoria do hospital não souberam dar informações sobre os receptores dos demais órgãos, já que o processo é intermediado pela Central de Transplantes, para garantir que não haja conflito de interesses em nenhum dos processos de coleta e transplante de órgãos.
 
De acordo com o Portal do Sistema Nacional de Transplantes, do Ministério da Saúde, a lista de espera por um órgão no Brasil abrangia 45,5 mil pessoas até meados de 2016. Deste total, 340 esperam (ou esperavam) por um novo coração.
 
A angústia de pacientes e famílias se prolonga em filas que muitas vezes parecem intermináveis. Infelizmente, o número de doadores não corresponde ao número de possíveis receptores. De acordo com a legislação brasileira, a doação de órgãos só pode ser realizada com o consentimento da família e, por falta de informação, muitos familiares não autorizam a doação.
 
De acordo com a coordenadora da Central de Transplantes do RN, Raissa Medeiros, o principal motivo pelo qual as famílias não autorizam a doação de órgãos é o fato de que os entes falecidos não haviam mencionado o desejo de doar em vida. “É só conversar com a família e difundir a vontade de ser um doador de órgãos em vida. Inclusive é uma atitude que tira o peso das famílias, que precisam decidir em um momento tão difícil”, explica Raissa.
 
Outros fatores que influenciam as famílias são desinformação ou crenças religiosas. A doação de órgãos só pode ser feita nos casos de morte cerebral. Após a interrupção da atividade neurológica, os órgãos continuam funcionando de forma mecânica até que cessem naturalmente.
 
A morte cerebral é um quadro irreversível e precisa de uma série de exames neurológicos e análise de dois médicos para ser diagnosticada. Uma vez que o fim da atividade cerebral é atestado, por mais que o coração continue batendo ou outros sinais vitais se prolonguem por algumas horas, não existe a possibilidade de que o paciente seja reanimado. “O regimento brasileiro é muito rigoroso para diagnosticar morte cerebral, mas algumas famílias ainda têm dúvidas com relação a veracidade do diagnóstico”, relata a coordenadora da Central de Transplantes.
 
Além da diferença entre o número de doadores e o número de pessoas na fila de espera, os possíveis receptores ainda precisam aguardar por um doador compatível. No caso de Nicholas, o doador precisava ser uma criança com peso e altura semelhantes, que deveria ser portador de sangue O ou A, podendo ser positivo ou negativo. 
 
Embora não seja possível precisar a probabilidade que Nicholas tinha de encontrar um doador, o cirurgião José Hipólito Dantaso afirma que este é, sem dúvida, um caso raro, já que “o número de crianças doadores é discrepante em relação ao número de adultos”.
 
Para o médico, a doação de órgão é um ato nobre tanto pela possibilidade de salvar outras vidas, como por ser uma decisão que as famílias precisam tomar em um momento de dor, diante da perda de um ente querido.
 
O cirurgião do sistema digestivo Alexandre Borges, que também participou da coleta de múltiplos órgãos realizada na última terça-feira, reitera que é um gesto fundamental. “Se não houver doação, não existe transplante. Em meio a perda de u m ente querido, as famílias precisam entender que aquele órgão pode salvar outras vidas”, declara.
 
Os transplantes de coração são realizados em apenas quatro estados brasileiros:Ceará, Distrito Federal, São Paulo e Paraná. Quando as centrais estaduais identificam que existe um órgão disponível, verificam a necessidade dentre do próprio estado e, caso não haja receptores compatíveis, disponibiliza o órgão para o sistema nacional.
 
O Rio Grande do Norte é o 3º estado do Nordeste que mais realiza doações de órgãos e o 13º do Brasil. No que diz respeito aos transplantes, o estado realiza apenas os de medula óssea, córnea e rins. Em 2016 foram realizados 50 transplantes de medula óssea, 59 de rim e 94 de córnea até novembro, segundo a Central de Transplantes do Rio Grande do Norte. Ainda estão na fila aguardando por um órgão 22 possíveis receptores de medula, 157 possíveis receptores de córnea e 152 pessoas aguardando por um rim.
 
O regimento brasileiro é muito rigoroso para diagnosticar morte cerebral, mas algumas famílias ainda têm dúvidas com relação a veracidade do diagnóstico”