PCC contra o Sindicato: “Uma guerra por lucro”, afirma delegado

PCC contra o Sindicato: “Uma guerra por lucro”, afirma delegado

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Primeiro Comando da Capital: guerra deflagrada contra o Sindicato do Crime

O Sindicato do RN é uma facção nascida e criada no Rio Grande do Norte. Sua formação se deu após membros do Primeiro Comando da Capital (PCC) que atuavam no estado se desentenderem com a “central”, no Sudeste. Um dos maiores conflitos foi a taxação obrigatória que os filiados precisavam pagar à facção, uma espécie de mensalidade.

“Todo detento que é batizado e filiado às facções precisa contribuir com uma mensalidade, o que inclusive foi um dos motivos para a criação do Sindicato do RN. O PCC cobrava uma mensalidade maior do que os membros do Sindicato achavam que deveriam pagar, o que motivou a criação do Sindicato”, esclarece o delegado adjunto da Divisão Especializada de Combate ao Crime Organizado, Marcuse Cabral.

A partir da criação, em 27 de março de 2013, iniciou-se, diz Cabral, uma guerra velada entre o novo grupo e o PCC. O objetivo de cada lado é o lucro do tráfico de drogas. “A causa [da guerra] é justamente a dominância do tráfico de drogas, é a busca pelo lucro”, diz o delegado.

Cabral afirma que o conflito entre PCC e Sindicato se intensificou em 2016. Na verdade a briga seria entre os paulistas e os cariocas do Comando Vermelho, entretanto, como facções estaduais como o Sindicato e a Família do Norte – na Região Norte – resolveram se aliar ao grupo atuante no Rio de Janeiro, a guerra se estadualizou. A partir daquele ano, uma guerra sangrenta se instalou em todo o país.

“Esse conflito propriamente dito foi deflagrado em 2016 entre o Comando Vermelho e o PCC, no Sudeste. É sabido que o PCC tem uma política de desenvolvimento nacional, ele tem uma infiltração em todos os estados do país, e em razão dessa política imperialista as outras facções menores dos estados, o que se insere o Sindicato, se aliaram ao Comando Vermelho com intuito de tentar diminuir a dominância do PCC. Essa guerra foi deflagrada de forma nítida em 2016 com o ‘salve’ do PCC deflagrado contra o Comando Vermelho”, analisou Marcuse Cabral.

A chamada guerra se intensificou ainda mais, primeiro na Região Norte do país, no Amazonas e Roraima, quando um massacre em presídios foi registrado em cada estado. Depois a onda de mortes seguiu para o Nordeste, onde houve conflitos no Ceará, e um massacre na maior penitenciária do Rio Grande do Norte, Alcaçuz, em janeiro.

Desde então, só crescem os números de mortos no estado. Nunca se matou tanto. Dados do Observatório da Violência Letal Intencional do RN (OBVIO) apontam que 1.496 homicídios foram registrados no RN do início do ano até a tarde desta última sexta-feira (11). O principal motivador dessas mortes: o tráfico de drogas, o grande modo de financiamento do crime organizado.

“Quando falo que essa guerra se iniciou em 2013 e foi intensificando a partir de 2016, quero dizer que todos esses índices de homicídios que aumentam constantemente de maneira acelerada no RN são resultado dessa guerra de facções. Não percebemos de maneira mais clara ainda porque se coloca sempre: a vítima era usuária de drogas; a vítima tinha passagem pela polícia. Mas na verdade, a maioria dessas mortes são decorrentes do confronto entre as facções, algo que não é passado de maneira muito clara para a sociedade”, analisou o delegado Marcuse.

Outro fator que acirrou os ânimos e contribuiu para a guerra de facções vista hoje foi a instalação de bloqueadores de celulares na Penitenciária Estadual de Parnamirim (PEP), em meados de 2016. Após isso, uma onda de ataques se instalou no RN, e ameaças de mais atentados foram disseminadas em outras unidades prisionais.

“Tivemos como estopim uma ação de Estado, que foi a instalação das antenas de bloqueadores de celulares no Presídio Estadual de Parnamirim, uma ação acertada do Governo do Estado que já devia ter tomado essa iniciativa muito antes para impedir a comunicação e organização das facções dentro das unidades prisionais”, lembrou Marcuse Cabral.

RN é o terceiro do Nordeste com mais presença de facção paulista

Apesar de ser o terceiro estado do Nordeste em membros do PCC, no Rio Grande do Norte ainda conta com o Sindicato do RN com mais volume de filiados. Dados da inteligência de segurança pública repassados pelo delegado da Deicor Marcuse Cabral, estimam que cerca de três mil pessoas estão na lista de membros da facção potiguar. O PCC teria pouco menos e mil filiados. Mesmo assim, é o suficiente para por o estado na terceira posição, atrás apenas de Ceará e Alagoas.

Aliás, o Nordeste é a região com mais membros da facção paulista, quando se exclui o Sudeste, região onde a organização foi fundada. Segundo Cabral, 43% dos membros do PCC estão no Sudeste, 33% estão no Nordeste e o restante espalhado por Norte, Sul e Centro-Oeste.

Em relação aos números, o delegado pontua que, por ser local o Sindicato tem mais representantes, mas não quer dizer que tenha uma vantagem clara sobre os rivais. “Não quer dizer que o poderio do Sindicato seja mais forte, porque como o PCC é uma facção nacional, as fontes de financiamento são maiores. Apesar de terem menos membros eles são mais armados”, atentou o delegado da Deicor.

O fato é que o grupo potiguar, por ser mais volumoso, ocupa mais unidade prisionais no estado e mais bairros em Natal. “Das 32 unidades do estado, acredito que 28 sejam dominadas pelo Sindicato, ou seja, em 28 delas a maioria dos detentos são filiados à facção”, estimou. Em Natal, complementa Cabral, de conhecimento da polícia, apenas a Comunidade da África, na Redinha, Zona Norte, tem domínio do PCC. O restante das comunidades são do Sindicato.

O PCC, contudo, constantemente busca avançar e conquistar territórios. É o que acontece neste momento no bairro Golandim, em São Gonçalo do Amarante, onde moradores têm relatado constantes conflitos entre as facções rivais.

“É uma área com muitos membros do Sindicato, e essa violência é pela tentativa do avanço do PCC nessas áreas. É uma região de grande influência no Sindicato do RN. A gente precisa frisar que a maioria das pessoas que moram nessas comunidades são pessoas de bem que vivem a mercê da atuação dessas facções”, disse.