Sávio, Everaldo e a felicidade de serem pais de filhos adotivos 

Sávio, Everaldo e a felicidade de serem pais de filhos adotivos 

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Everaldo e Sávio, pais de Guilherme, Emanuel e Clarice

Na casa da família Bezerra de Andrade, a rotina começa por volta das 5h. É quando o sol começa a invadir a varanda do apartamento avisando que é hora de arrumar as crianças para a escola, preparar o café da manhã e sair para o trabalho. É assim todos os dias para o médico Sávio Bezerra, 41, e para o professor Everaldo Andrade, 48, pais de Guilherme, Emanuel e Clarice.

O casal está junto há quase vinte anos. Os dois percorreram lado a lado todas as etapas de suas vidas profissionais e depois de mestrados, doutorados e concursos decidiram que era a hora de dar mais um passo e realizar o sonho de serem pais.

“A nossa união é muito baseada em respeitar os desejos dos dois. Acho que um dos grandes motivos para estarmos juntos há muito tempo é termos metas em comum porque não é a paixão que sustenta um relacionamento. Uma dessas metas era ter filhos e constituir família”, explica Sávio. E Everaldo contextualiza: “Quando cumprimos todas as nossas metas profissionais, percebemos que estava na hora [de adotar uma criança]”.

A decisão foi tomada há cerca de sete anos, quando o casal se inscreveu no cadastro nacional para adoção. Um ano depois veio o primeiro filho, Guilherme, hoje com seis anos de idade. Sávio e Everaldo conheceram o pequeno Gui, como chamam o filho, nas suas primeiras 24h de vida e dois meses depois estavam com a guarda definitiva, levando o bebê para casa. “Foi um desafio, ele era muito pequenininho, nós nunca tínhamos cuidado de uma criança antes, mas deu certo e ele foi crescendo junto com a nossa maturidade”, relembra Sávio.

Quando Guilherme estava com três anos de idade, o casal sentiu a necessidade de ter um segundo filho e abriu as portas de sua casa para Clarice, a mais nova, hoje com quatro anos. “A casa estava muito masculina e Clarice trouxe um pouco desse universo feminino para a nossa família”, conta o médico.

O processo de adoção de Clarice foi um pouco mais longo que o de Guilherme. Ela começou a morar com o casal e ser criada como filha, através de documentos provisórios, mas a guarda definitiva só veio após dois anos, quando Sávio e Everaldo conseguiram finalmente a garantia de todos os direitos enquanto pais de Clarice.

No decorrer desse período, o casal entrou na fila de adoção mais uma vez e sinalizou à Vara da Infância e da Juventude que gostariam de adotar o terceiro filho. Foi então que Emanuel apareceu na vida deles, já com dois anos e meio. Seu processo de adoção foi o mais rápido de todos, durou poucos meses e a guarda definitiva saiu dez dias antes do documento que reconhecia Clarice como filha do casal.

Sávio atribui à rapidez do processo ao fato de Emanuel ser uma criança mais velha, que caminhava para uma adoção tardia, um perfil que costuma ser mais difícil de ser adotado por outras famílias. E relembra o dia em que ele e Everaldo conheceram o filho: “A Vara da Infância ligou e disse que tinha uma criança apta à adoção, fomos ao abrigo, sentamos no chão e ele veio até nós. Quando olhamos, eu disse ‘Everaldo, ele também é nosso filho. Precisamos levar ele para casa e fazer dar certo'. E tem dado certo desde então”.

O médico relata que o terceiro filho chegou saudável em casa, mas ainda falava poucas palavras para a idade e não tinha muita coordenação motora ao caminhar. “As pessoas costumam achar que as casas de passagem não cuidam bem das crianças, mas cuidam. Quando nosso filho chegou, ele não tinha sequer uma cárie”.

Hoje, aos cinco anos de idade, Emanuel já sabe ler e os pais dizem que ele deve ser “o letrado da família”. Dentre os três filhos, é o que mais gosta dos livros e mais faz perguntas infantis, com a desenvoltura linguística de um pequeno adulto. Já Guilherme, é o artista. Aos seis anos, o pequeno participa do coral da Escola de Música da UFRN, faz aulas de violino e, em casa, toca bateria, improvisando o instrumento com lápis e brinquedos da irmã.

“Nós incentivamos muito o desenvolvimento de cada um, dentro do que mais se identificam; Gui é o artista, canta e dança e Emanuel é muito inteligente, faz perguntas como um adulto. Clarice ainda é muito criança, ainda está descobrindo o mundo e seus interesses. Ainda não sabemos qual vai ser o talento dela”, conta Sávio, com orgulho.

Um é pai; o outro painho

Para além das perguntas cotidianas de Emanuel, ao longo dos primeiros anos o casal se deparou com a questão “como explicar que eles não têm uma mãe?”. Sávio conta que, apesar das preocupações iniciais, o assunto surgiu de forma natural e foi rapidamente compreendida pelos filhos.

“Quando Gui era mais novo, levamos a uma psicóloga para saber se era uma questão que precisava ser trabalhada. Depois de quatro sessões, ela nos chamou e disse: ‘seu filho não tem problema nenhum com isso. É muito natural para ele”, relembra Sávio.

Com os filhos mais novos, a conversa também surgiu de forma natural e a família decidiu que Everaldo seria chamado de pai e Sávio de painho. “Eu sou mais rígido e Sávio é mais permissivo. Eles foram entendo essas características; quando eu brigo com as crianças por algum motivo eles correm e chamam ‘painho’”, relata Everaldo. E Sávio complementa: “Eles entenderam isso muito bem. Sabem quem ensina a atividade de casa e quem dar o brinquedo”.

Quando perguntados sobre o preconceito, Sávio e Everaldo afirmam que as crianças nunca sofreram com isso na escola ou em qualquer outro ambiente. “Eles sempre foram muito aceitos na sociedade. Na escola, as outras crianças gostam muito deles, nossos filhos são convidados para todas as festinhas de aniversário”, diz Sávio.

Nas datas comemorativas, na escola, um deles participa do Dia das Mães e os dois participam do Dia dos Pais. “Esse ano, inclusive, uma professora teve a sensibilidade de fazer todas as lembrancinhas em dobro, uma para mim e uma para o meu esposo”, complementa Sávio.

Everaldo ressalta como o casal assumiu a postura paterna de forma integral. “Desde que eles chegaram, somos nós quem cuidamos de tudo. Hoje em dia temos duas funcionárias que nos ajudam – uma durante a semana e uma no fim de semana – mas nós damos banho, arrumamos para a escola, colocamos para dormir... Nós assumimos o papel de pais desde o primeiro dia que chegaram. Eles vão conosco para todos os lugares. Nunca passaram um dia sequer sem a gente desde que foram adotados”.

Sávio, Everaldo, Guilherme, Emanuel e Clarice são personagens do documentário ‘Entrelaços’, produzido pelo coletivo Jardim de Histórias. Com direção de Pedro Medeiros e fotografia de Giovanni Sérgio, o curta estreou na primeira semana de agosto, revelando a história de cinco famílias que tem em comum o vínculo da adoção.

Sávio Bezerra conta que a família aceitou o convite porque encontrou no documentário uma forma de retribuir a atenção que receberam nos processos de adoção e incentivar que outras pessoas adotem, mostrando que “todas as constituições de família são normais”.

O documentário foi idealizado pelas psicólogas Alessandra Macêdo e Geórgia Hackradt, que estagiaram na 2ª Vara da Infância e da Juventude de Natal e sentiram a necessidade de abordar o tema, ampliando o debate sobre adoção na sociedade. Com esse objetivo, as psicólogas criaram o coletivo Jardim de Histórias, que teve o filme “Entrelaços” como primeiro trabalho.