Violência no trânsito mata mais que doenças cardíacas

Violência no trânsito mata mais que doenças cardíacas

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A cidade de Natal registrou uma média de 21 acidentes diários de trânsito em 2014, segundo levantamento feito pela Secretaria de Mobilidade Urbana (STTU). Os dados fazem parte do primeiro anuário estatístico feito sobre as ocorrências nas vias públicas da capital. 

O perfil dos acidentes envolveu homens na faixa entre 20 e 40 anos, que causaram colisões transversais – parte da frente de um veículo atinge a lateral de outro –, durante o dia e, geralmente, nos bairros da zona Sul de Natal. Em todo o ano de 2014, o município contabilizou 7,7 mil acidentes, com 32 mortos e 2,3 mil pessoas feridas.

O anuário foi lançado oficialmente ontem, na sede da STTU, e traz informações sobre os acidentes ocorridos entre os anos de 2013 e 2014. A pesquisa mostra um aumento de 5,36% no número de acidentes entre os anos pesquisados. Há dois anos, foram contabilizadas 7,3 mil colisões nas vias do município.

Segundo Elequicina dos Santos, secretária municipal de Mobilidade Urbana, os dados conflitam com o senso comum das ações de fiscalização no tráfego. 

De acordo com a base de dados, mais de 70% dos registros de incidentes no tráfego em Natal ocorreram de manhã e à tarde. Somente 3% dos acidentes de trânsito aconteceram durante o período da madrugada. “A pesquisa mostra que as blitzes noturnas, apesar de eficazes, precisam também se intensificar nestes dois momentos do dia”, afirma.

O bairro com maior número de colisões foi Lagoa Nova, na Zona Sul, com 1,2 mil casos em 2014. A quantidade é o dobro dos casos do segundo lugar, Capim Macio, também na mesma região, com incidência total de 514 registros.

De acordo com Elequicina dos Santos, o anuário vai servir de referência para o planejamento das atividades de fiscalização e para reestruturar a malha viária da cidade. 
“Com os números, sabemos agora em quais áreas podemos atuar, planejando a instalação de novos equipamentos, fiscalização e a melhoria das atividades de educação no trânsito”, aponta.

O gerente do setor de estatística da STTU, Vicente de Sousa Rêgo, explica que a análise estatística pode, inclusive, fornecer subsídios para a mudança nas geometrias de vias públicas, como o aumento de pistas, por exemplo. “A estatística é fundamental para elaboração de políticas públicas para o trânsito do município. Vai servir para garantir mais segurança e fluidez do tráfego”, afirma.

Em 2014, a via com maior incidência de acidentes foi a área urbana da rodovia BR-101 (616), entre Natal e Parnamirim. Surgem em seguida as avenidas Roberto Freire (434), João Medeiros Filho (333), Prudente de Morais (294) e Salgado Filho (250).

Ainda de acordo com o setor de estatística, o sistema de gestão de dados de trânsito apresentou problemas ao longo dos últimos meses, mas a previsão é de que o relatório do primeiro semestre de 2015 seja apresentado na primeira quinzena de outubro. Além disso, a pesquisa é fruto da integração dos dados da Polícia Rodoviária Federal, do Comando de Policiamento Rodoviário Estadual e da Secretaria de Mobilidade Urbana.

Motocicletas lideram os casos com mortes

O anuário estatístico de acidentes aponta que 32 pessoas foram mortas nas vias municipais em 2014 em decorrência de acidentes de trânsito. O estudo detalha que 43,75% dos óbitos aconteceram pela manhã. Os pontos com maior incidência de colisões com vítimas fatais aconteceram em dois trechos de rodovias federais – BR 101 (Zona Sul) e BR 226 (Zona Norte). 

As motocicletas lideram as estatísticas da violência no tráfego. Este tipo de veículo resultou em 14 mortes em 2014. “O município precisa impor mecanismos mais rígidos de fiscalização, como a instalação de um maior número de câmeras de monitoramento para reduzir esta quantidade de mortes e lesões corporais”, detalha. 

Frank Albuquerque, delegado titular do Distrito Especializado em Acidentes de Veículos (DEAV), revela que hoje a unidade tem 90 inquéritos abertos sobre acidentes de trânsito, sendo que 40% registram óbitos.

No último inquérito aberto na delegacia, ontem pela manhã, a investigação apura um caso de lesão corporal grave em razão do atropelamento do oficial de justiça José Filgueiras, 37. Ele foi atingido por um automóvel Mercedes-Benz enquanto praticava exercícios na Avenida Alexandrino de Alencar. “Estamos procurando testemunhas e registros de câmeras no local do acidente”, explica o delegado. 

Secretário defende fiscalização ainda mais rigorosa contra álcool

Segundo o secretário municipal de Saúde, Luiz Roberto Fonseca, a violência no trânsito é, hoje, o principal custo para a saúde pública. “É uma epidemia. O trânsito mata mais que as doenças cardíacas”, afirma. 

De acordo com o município, o custo de uma morte no trânsito é de R$ 600 mil. “Somente com o tratamento médico, no caso dos feridos, o gasto público é de R$ 300 mil”, reforça, revelando que o custo refere-se ao atendimento do acidentado pelo Samu e a assistência que ele recebe nas unidades da rede pública de saúde. 

Nos primeiros seis meses de 2015, segundo dados preliminares do Ministério da Saúde, foram registrados 67 óbitos em acidentes de trânsito em todo o Estado. O secretário de Saúde reforça a necessidade de intensificar medidas de fiscalização, bem como ampliar os custos da Lei Seca, que pune os motoristas que ingeriram álcool.

Segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), o Rio Grande do Norte apresentou uma redução de 18,24% nas indenizações pagas por mortes no trânsito no primeiro semestre de 2015 em comparação com o mesmo período do ano passado. O valor pago através do seguro obrigatório de veículos automotores somou este ano R$ 5,197 milhões. 

Foram contabilizadas 385 mortes entre janeiro e junho último, o que representa uma média de dois casos por dia nas estradas potiguares. Em 2014, foram 426 mortes em acidentes, o que representou um total de R$ 5,751 milhões em indenizações pagas. 

De acordo com a seguradora Líder, responsável pelo pagamento das coberturas de acidentes de trânsito, as motos e motonetas lideram as estatísticas de mortes em todo o Rio Grande do Norte. Mais de 60% das indenizações pagas são referentes a este tipo de veículo.