Estilista potiguar radicado nos EUA lança em Natal a nova coleção de inverno

Estilista potiguar radicado nos EUA lança em Natal a nova coleção de inverno

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“O Juan comentou que só en controu esse tipo de botão, pode ser?”, pergunta uma das costureiras mostrando a tela do celular e ele confirma com a cabeça. “Esse tá bom sim, avisa a ele que pode trazer”. O clima naquela manhã é de correria. Júlio César apresentou na noite de ontem (10) em Natal a coleção de inverno que ele deve lançar nos EUA dentro dos próximos dias. 
 
Potiguar, natural de Mossoró, mas radicado nos EUA, em Nova York, há mais de 20 anos, Júlio, de 50, hoje em dia mantém dois estúdios próprios, um no bairro do Tirol, onde conversamos, e outro na Gareth Street, em Nova York, onde o ritmo é bem mais “estressante”, segundo ele mesmo, pela alta demanda de clientes em busca de roupas.
 
Batizada de “Wandering Soul”, a nova coleção começou a ser pensada no final do ano passado, inspirada inicialmente pela música River Of Sorrow, da banda norte-americana Antony and the Johnsons, liderada por Anohni. “Mas então eu tive um certo receio de a coleção ficar muito triste, aí mudei o rumo, baseado no disco Wandering Spirit, do Mick Jagger”, explica, afirmando que música é quase sempre sua inspiração.
 
Direcionada especialmente ao mercado americano e às regiões de clima frio no Brasil, a coleção é composta por peças de tons mais escuros e com vários tecidos mais encorpados, como ele mesmo mostra ao longo da conversa. Por ali as peças estão separadas de acordo com as modelos que as usarão daqui há algumas horas no desfile de estreia.
 
Ele e toda a equipe dormiram no ateliê para economizar tempo e o clima é familiar. No escritório, seu marido, o dominicano Juan Ripolli toma conta de tudo relacionado aos bastidores junto com um sobrinho e a irmã de Júlio César. 
 
“Eu fico apenas responsável por isso aqui”, diz, apontando para a mesa cheia de retalhos no seu próprio ateliê, que ele chama de “Caos Criativo”. Vários tipos de tecidos estão espalhados pelo chão e seguem uma certa concordância com um painel dividido em 4 pregado na parede no qual semanalmente Júlio troca recortes de tecidos, fotos e todas as demais referências que possa ocupar aquele espaço. Essa dinâmica serve tanto para o estúdio daqui quanto para o que ele mantém nos EUA.
 
Quarenta looks estão dispostos ao total no estúdio e todos carregam a característica mais forte de sua marca desde o início da aventura pela costura: a profusa mistura entre tecidos.
 
“Eu sempre me contive ao longo dos anos, mas acho que essa é a primeira coleção que eu deixei isso para lá e deixei rolar essa mistura intensa de tecidos”, conta, apontando para o teto forrado inteiramente por recortes de diferentes tecidos.
 
LÁ E CÁ
 
Há cerca de dois anos Júlio se divide entre os dois estúdios, passando cerca de dois meses em cada um deles. A agenda dividida desta forma faz com que suas peças sejam comercializadas tanto em território americano, quanto no Brasil. A conquista mais recente foi a capital pernambucana, a mais nova cidade a vender Júlio César.
 
Mas mesmo assim a demanda fora do país é realmente muito maior, como ele reconhece, devido às mais de duas décadas em que passou morando exclusivamente nos EUA, trabalhando tanto com sua própria clientela, quanto com o designer Koos Van Den Akker, um de seus principais incentivadores e a quem ele dedica esta coleção.
 
O percurso de sucesso começou há algum tempo, quando aos 17 Júlio saiu de Mossoró para trabalhar em São Paulo, a convite de seu irmão, no jornal A Folha de São Paulo, e por lá exerceu a extinta função de “colagista”, organizando recortes de jornais para arquivo. 
 
Ao mesmo tempo trabalhava também na equipe de edição da TV Cultura, até que aos 20 decidiu se mudar para Londres a fim de estudar mais sobre mídia, e assim permaneceu por cerca de 3 anos até chegar aos EUA, obstinado a estudar mais sobre arte no “Fashion Institute of Technology”, o FIT, em Nova York.
 
“Eu realmente tive muita sorte porque no meu primeiro dia lá conheci o Koos Van Den Akker que era amigo de alguns amigos meus. Pouco tempo depois ele precisou de alguém para o ajudar no seu ateliê e me chamou”, lembra sobre o começo da parceria profissional entre os dois encerrada apenas com o falecimento do designer, em fevereiro de 2015.
 
Pertenceu a Koos Van Den Akker, por exemplo, o boneco de Edward Mãos de Tesoura que nos observa em cima do ar condicionado do estúdio. A miniatura do personagem criado por Tim Burton lhe faz lembrar do momento em que encarou com seriedade o dom de criar roupas. Ele ainda estava em Londres, quando foi convidado para uma festa a fantasia. Indeciso sobre o que usar, resolveu se vestir de Drácula, mas ao invés de comprar ou alugar uma roupa pronta decidiu ele mesmo costurar sua própria fantasia.
 
A inspiração veio dos pais do seu melhor amigo de infância, que eram costureiros, despertando desde cedo a curiosidade por croquis, tecidos e todo esse universo. “Acho que foi essa festa que me fez voltar a essa lembrança dos pais do meu amigo e então eu vi que podia ser possível também”, diz.
 
GRAVATA EM JASON MRAZ
 
Ao longo dos anos, as peças criadas pelo potiguar já vestiram alguns artistas influentes dos EUA, como o humorista Bill Cosby, para quem desenhava peças usadas no show apresentado por ele regularmente na TV americana; e também para alguns mais jovens, como o cantor e compositor Jason Mraz, que utilizou uma gravata desenhada por Júlio durante uma premiação do Grammy.
 
A gravata aliás, fazia parte de uma das coleções de maior repercussão de Júlio nos EUA, elaborada em parceria com a designer Alyce Santoro, criadora do “Sonic Fabric”, um tecido feito a partir de fitas K7, o mesmo que ele busca, dobrado, entre as pilhas de tecido do ateliê.
 
“Ela lançou várias coleções desse tecido, uma inclusive a partir das músicas que gravava nos metrôs, com os artistas de rua”, relembra. 
 
“Deixa eu interromper só um pouquinho”, menciona uma de suas costureiras levantando os dois braços, cada um com um zíper de cor diferente. Júlio não demora muito e vai certeiro no de cor preta. Juan, seu esposo, aprova a decisão e sai da sala para resolver mais alguns detalhes do desfile.
 
Júlio e Juan se conheceram por acaso em uma tarde no Central Park, quando Júlio botou o olho em Juan e resolveu puxar conversa. “Conversamos durante horas naquele dia e eu me senti encantado. Ele deixou o número, mas pensei que nunca mais iríamos nos falar. Eis que ele ligou”, lembra, com empolgação do episódio vivido há mais de 15 anos.
 
A união só seria oficializada, no entanto, anos depois, no município de São José do Mipibu, logo após o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo ser aprovado no Brasil.