Após dois anos, comer dentro e fora de casa vai pesar menos no bolso

Após dois anos, comer dentro e fora de casa vai pesar menos no bolso

Compartilhe esse conteúdo

Com a maior oferta de alimentos graças à supersafra e a desaceleração no preço dos serviços, comer dentro e fora de casa deve subir menos em 2017, garantem especialistas.

Fábio Romão, economista da consultoria LCA, acredita que o preço da alimentação em casa terá uma alta de 4,7%, a menor valor desde 2009. A projeção do economista representa uma desaceleração do ritmo de alta em 32%, já que a alimentação em casa teve alta de 9,36% em 2016, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). "Ainda não vai compensar as altas anteriores, mas vai desacelerar e se posicionar próximo à inflação, projetada para 4,66%, o que é um ganho importante para o consumidor", diz.

Já para o preço da alimentação fora de casa, a expectativa da LCA é de alta de 6% em 2017 ante um avanço de 7,22% visto em 2016. A alimentação fora de casa varia mais do que a alimentação em casa porque está ligada não só à oferta de alimentos, mas também ao lazer, ou seja, à decisão de comer na rua.

Em 2015 e 2016, a refeição fora do lar teve uma variação menor de preço do que comer em casa, o que não costuma ser visto.

Segundo Romão, isso ocorreu por causa do momento econômico, que acarretou, entre outros fatores, o encolhimento do mercado consumidor. Nestas condições, os donos de restaurantes não tiveram espaço para mexer nos preços e fizeram até promoções. Em 2017, além da ajuda da safra, é prevista uma estabilização da economia, o que deve fazer com que a alimentação fora de casa retorne à dinâmica "normal", com os preços variando mais do que a alimentação em casa.

O economista da Infinity Asset, Jason Vieira, alerta que ainda não será visto um processo de deflação nos alimentos, quando há uma queda generalizada de preços, por causa de fatores como a demanda e fenômenos climáticos, que mantêm o preço em alta. Vieira projeta uma alta de 0,28% no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em abril e alta de 0,12% no grupo de Alimentos.

A grande questão é se as projeções vão se refletir no prato do consumidor. Para Paula Cavagnari, diretora-presidente Associação das Empresas de Refeição e Alimentação (Assert), o preço médio da refeição completa pode cair após três altas consecutivas.

Pesquisa da Assert mostra que o preço médio da refeição em 2016 foi 8% mais caro que em 2015. "A tendência agora é de queda porque esse 8% é maior que a inflação oficial, de 6,29%, apesar de ter acompanhado o aumento do grupo alimentação", explica Cavagnari.

No bolso

Em 2016, o consumidor desembolsou, em média, R$ 32,94 por uma refeição completa (prato principal, bebida, sobremesa e café). O valor foi de R$ 30,48 em 2015 e de R$ 27,36 em 2014.

Em algumas cidades, o consumidor pagou bem mais que a média. Foi o caso de Florianópolis (R$ 43,53), Vila Velha (R$ 37,49) e São Luís (R$ 36,96). Paula, da Assert, explica que esse número é composto, entre outros fatores, pelo alto custo da logística, dos alimentos, de vida e aluguel dessas cidades.

Por outro lado, os consumidores de São José dos Pinhais e Uberlândia pagaram mais barato pela refeição: R$ 23,08 e R$ 24,64, respectivamente. O estudo foi feito de 11 a 28 de novembro, em 4.574 estabelecimentos que aceitam vale-refeição.

A pesquisa da Assert, conduzida pelo Instituto Datafolha, também apontou um aumento dos estabelecimentos com autosserviço, o self-service. Em 2016, 58% dos restaurantes pesquisados foram desse tipo, ante 54% em 2015. Paula explica que esse aumento reflete a preocupação dos donos em atender uma clientela que busca preços menores para se alimentar.

O peso da crise no bolso e no prato em 2014 e 2015, porém, não fez com que o consumidor administrassem os gastos na alimentação fora de casa.

Uma pesquisa realizada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) mostra que uma em cada cinco pessoas que possuem vale restaurante e/ou alimentação não controlam os gastos feitos com essa modalidade. Outros 27% admitem extrapolar o valor antes da recarga da empresa, sendo necessário complementar o total.

O conhecido "VR" deveria ser um aliado do brasileiro, já que dá um alívio ao bolso e permite fácil controle de gastos. A economista-chefe do SPC, Marcela Kawauti, pondera que "o brasileiro tende a deixar de lado o controle financeiro".

O benefício é viabilizado por meio do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), do Ministério do Trabalho, que complementa a alimentação do trabalhador em parceria com as empresas. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Consumidor deve ficar atento a fatores que influenciam o preço da energia

Compartilhe esse conteúdo

Diversos fatores podem influenciar a conta de luz e o consumidor deve estar atento às informações do setor para se programar e tentar economizar quando as condições estiverem menos favoráveis, como na vigência da bandeira vermelha, por exemplo, que encarece o preço da energia.

A fatura de eletricidade é composta por diversos itens, como o custo da geração de energia, da transmissão, além de impostos e encargos. Todos os anos, ela passa pelo processo de reajuste, que tem como objetivo corrigir os preços cobrados pelas distribuidoras. A cada quatro anos, em média, ocorre a revisão tarifária, quando são revistas as regras de cálculo das tarifas e a transferência dos ganhos de produtividade das distribuidoras. No ano em que há a revisão tarifária, não é aplicado o reajuste anual.

Tanto os reajustes quanto as revisões tarifárias são definidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Recentemente, a agência tem estabelecido alguns percentuais negativos de reajustes, ou seja, o preço da energia para os clientes de algumas distribuidoras têm caído em vez de aumentar. Isso acontece quando a Aneel faz um ajuste dos valores que foram estimados no processo tarifário anterior.

Bandeiras

Além dos reajustes nas tarifas, desde 2015 a conta de luz sofre o impacto das bandeiras tarifárias, que refletem o custo de geração da energia. Quando chove menos, os reservatórios das hidrelétricas ficam mais vazios e é preciso acionar termelétricas para garantir o suprimento de energia no país. Nesse caso, a bandeira fica amarela ou vermelha, de acordo com o custo de operação das termelétricas acionadas.

Em abril, a bandeira tarifária em vigor é a vermelha patamar 1, que significa um adicional de R$ 3 para cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos.

O presidente do Instituto Acende Brasil, Claudio Sales, explica que a bandeira tarifária não é um pagamento adicional, porque os consumidores já pagavam pelo uso das termelétricas, mas isso entrava no cálculo dos reajustes anuais. “Não é um pagamento adicional, é apenas mais alinhado no tempo com a realidade. Se você está acionando mais termelétricas hoje, está fazendo o pagamento tempestivamente, com a bandeira amarela ou vermelha.”

Indenizações

Outro fator que deverá aumentar a conta de energia nos próximos anos é o pagamento de indenizações às transmissoras de energia. O total, de R$ 62,2 bilhões, será pago pelos consumidores em oito anos. Em 2017, o impacto será de 7,17%, segundo a Aneel.

Essa indenização será necessária para remunerar os ativos das transmissoras de energia elétrica. A remuneração é uma gratificação paga pelos investimentos feitos pelas empresas que renovaram suas concessões antecipadamente em 2012, mas só recentemente a Aneel definiu como será feito o ressarcimento.

“Do ponto de vista do consumidor, isso é um incômodo absolutamente indesejável, mas é vital para a sobrevivência das empresas”, avalia Sales, lembrando que a indenização é uma consequência da Medida Provisória 579, que em 2012 determinou a renovação antecipada das concessões do setor elétrico.

Desconto

Por outro lado, os consumidores terão um alívio nas contas de luz de abril por causa da devolução de valores cobrados a mais no ano passado. Os percentuais de redução na tarifa que será aplicada em abril variam de 0,95% a 19,47% para 90 distribuidoras.

A devolução vai ocorrer porque o custo da energia proveniente da termelétrica de Angra 3 foi incluído nas tarifas do ano passado, mas a energia não chegou a ser usada porque a usina não entrou em operação. O valor total a ser devolvido será de R$ 900 milhões.

Marco Civil da Internet pode perder força com novas leis, dizem pesquisadores

Compartilhe esse conteúdo

Três anos após a sanção da Lei 12.965, de 23 de abril de 2014, que fixou o Marco Civil da Internet, apontado como referência mundial para as legislações que tratam da rede mundial de computadores. Os princípios da lei – especialmente a garantia da neutralidade da rede, da liberdade de expressão e da privacidade dos usuários – foram estabelecidos para manter o caráter aberto da internet.

A pesquisa O Brasil e o Marco Civil da Internet: o estado da governança digital, do Instituto Igarapé, organização dedicada a temas de segurança, justiça e desenvolvimento, indica que projetos de lei no Congresso Nacional que alegam a necessidade de facilitar investigações criminais põem em risco direitos como o da privacidade e o da liberdade de expressão.

Entre as propostas apontadas pela publicação como ameaça ao Marco Civil está o Projeto de Lei 215/2015, que exigiria, se aprovado, que todas as empresas de internet armazenassem informações do usuário como nome, CPF e endereço residencial. Também exigiria que essas empresas fornecessem as informações à polícia em investigações criminais sem ordem judicial, o que teria um efeito prejudicial para normas de privacidade online.

Segundo o autor do estudo, o pesquisador do Instituto de Política Internacional da Universidade de Washington Daniel Arnaudo, em maio de 2016, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre Crimes Cibernéticos aprovou seu relatório final recomendando projetos que contestam o Marco Civil.

“O relatório inclui uma iniciativa que permitiria a expansão da retenção de dados de usuários por aplicativos e provedores de internet (PL 3.237/2015) e outra que autorizaria o acesso a endereços de IP [protocolo de internet, código usado na transmissão de dados entre as máquinas em rede] em investigações criminais sem ordem judicial (PLS 730/2015)”, diz o autor, na pesquisa.

Para o cientista político e professor do curso de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Maurício Santoro, o Marco Civil da Internet é uma lei com relevância global, que trouxe avanço considerável ao que se tinha, tendo sido amplamente debatido pela sociedade. Ele também avaliou que há uma série de ações no Congresso que podem enfraquecer o Marco Civil. “O que mais me assustou foi a CPI sobre crimes cibernéticos com um discurso contra o marco civil”.

MARCO CIVIL DA INTERNET

O Marco Civil da Internet foi apontado como referência mundial para as legislações que devem tratar da rede mundial dos computadores, durante o NetMundial – Encontro Multissetorial Global Sobre o Futuro da Governança da Internet, que reuniu governos, empresas, especialistas e ativistas em discussões sobre o futuro da rede.

Os princípios da lei – especialmente a garantia da neutralidade de rede, da liberdade de expressão e da privacidade dos usuários – foram estabelecidos para manter o caráter aberto da internet.

A neutralidade de rede prevê que o tráfego de qualquer dado deve ser feito com a mesma qualidade e velocidade, sem discriminação, sejam dados, vídeos, etc. Se essa neutralidade não fosse garantida, a internet poderia funcionar como uma TV a cabo: os cidadãos pagariam determinado valor para acessar redes sociais e outro para acessar redes e vídeos, por exemplo.

Outro princípio é a garantia da liberdade de expressão. Hoje, redes sociais, como Facebook e o Youtube, podem tirar do ar fotos ou vídeos que usem imagens de obras protegidas por direito autoral ou que contrariam regras das empresas. Por exemplo, fotos de integrantes da Marcha das Vadias com os seios à mostra ou vídeos que mostram partes de telejornais das emissoras já foram retirados do ar sem que os criadores desses conteúdos opinassem sobre restrição à veiculação. Com o Marco Civil da Internet, essas empresas deixam de ser responsáveis pelos conteúdos gerados por terceiros e não poderão retirá-los do ar sem determinação judicial, afora em casos de nudez ou de atos sexuais de caráter privado.

De acordo com o Artigo 19 da legislação, “com o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, o provedor de aplicações de internet somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências para, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente, ressalvadas as disposições legais em contrário”.

O marco também garante a privacidade dos usuários da internet, ao estabelecer que informações pessoais e registros de acesso só poderão ser vendidos se o usuário autorizar expressamente a operação comercial. Atualmente, os dados são usados por grandes empresas para obter mais receitas publicitárias, já que elas têm acesso a detalhes sobres as preferências e opções dos internautas e acabam vendendo produtos direcionados.

Além dos direitos considerados princípios da internet no Brasil, 13 outros foram estabelecidos pela “Constituição da Internet”, como passou a ser chamada a regra. A inviolabilidade da intimidade e da vida privada e indenização em caso de violação; a não suspensão da conexão à internet, salvo por débito diretamente decorrente de sua utilização; a manutenção da qualidade contratada da conexão à internet são alguns dos direitos dos usuários.

Os internautas deverão, de acordo com a lei, ter informações claras e completas sobre os contratos de prestação de serviços e coleta, uso, armazenamento, tratamento e proteção de dados pessoais, bem como ter garantida a acessibilidade, levando em conta as características físico-motoras, perceptivas, sensoriais, intelectuais e mentais do usuário.

Brasileiros ricos se mudam para Lisboa, a nova Miami

Compartilhe esse conteúdo

Em setembro de 2014, a empresária Andrea Schultz, 40, mudava-se com o marido e as duas filhas adolescentes para uma casa de 550 m² no Belas Clube de Campo, entre Sintra e Lisboa. O imóvel foi personalizado com três suítes e dependência de empregada, ao gosto do casal.

Donos de agência de viagem em Curitiba, os Schultz descobriram em Lisboa e arredores atrativos que brasileiros abastados encontram na Flórida, nos EUA, ao decidirem mudar e/ou investir fora do Brasil. "Só que aqui é melhor. Temos o idioma comum, facilidade para conseguir visto e até passaporte português", elenca Andrea.

Seu marido, Aroldo, 48, é um dos 282 brasileiros que obtiveram o "golden visa" (Autorização de Residência para Atividade de Investimento). Para ter direito ao visto, é preciso investir € 1 milhão (R$ 3,4 milhões) ou adquirir imóvel que custe ao menos € 350 mil (em áreas de reabilitação urbana) ou € 500 mil nas demais zonas. Após cinco anos, o beneficiário pode solicitar cidadania.

Direito que os descendentes, inclusive netos a partir de agora, estão requerendo cada vez mais. Só no Consulado de Portugal em SP são concedidas 820 novas cidadanias por mês. Nos últimos cinco anos, foram 40 mil.

"Os dois países estão sempre em contraciclo econômico e aproveitam oportunidades recíprocas", avalia Paulo Lourenço, cônsul-geral de Portugal em São Paulo. Hoje, 85 mil brasileiros são residentes regulares no país.

De olho nesse potencial, as imobiliárias e as incorporadoras portuguesas fazem fila para realizar eventos no Brasil.

"Quando vimos os brasileiros comprando em Orlando e em Miami, começamos a ir a feiras e a falar com corretores locais para atrair esse perfil de cliente que poderia achar Portugal interessante", afirma Gilberto Jordan, diretor da

Planbelas Sociedade Imobiliária, proprietária do empreendimento com campo de golfe onde vivem os Schultz.

Outras 15 famílias brasileiras responderam ao esforço de vendas do Belas Clube. Toda semana, recebem visitas de potenciais clientes do Brasil com cacife para desembolsar € 900 mil por uma casa.

"Os brasileiros descobriram Portugal há pouco. Tinham fascínio pelos EUA, só queriam ir para Miami", diz Pedro Lancastre, diretor da JLL Consultoria Imobiliária. Hoje, o Brasil responde por 14% da clientela, seguido de França (7%) e China (3%).

A mudança de rota se faz sentir no boom imobiliário que elevou o preço de imóveis de luxo em Lisboa em 19%, em média, nos últimos dois anos. Investimento atraente, quando se compara o metro quadrado em áreas nobres de Lisboa (€ 8.000), Paris (€ 18 mil) e Londres (€ 27 mil).

VISTA PARA O TEJO

Conta que influenciou José Luiz Nogueira, 57, a se instalar com a família em um imóvel de 340 m² no centro histórico de Lisboa, em 2015. Pagou € 5.340 pelo metro quadrado do imóvel restaurado em um edifício de 1840 na Sé.

Desfruta de sete portas que dão numa varanda voltada para o Tejo e vista lateral para o castelo de São Jorge.

"Financiei uma parte sem a burocracia do Brasil e com juros de menos de 2% ao ano", compara. "Os imóveis no centro chegaram a ter alta de 46% entre 2015 e 2016."

"Recomendamos o investimento em imóveis em Portugal. Você paga barato, está na Europa, forma patrimônio em euros e o retorno varia de 5% até 15%", diz Renato Breia, 32, sócio da Empiricus, consultoria financeira com filial em Lisboa. Ao se mudar há um ano e meio, o economista seguiu o conselho dado aos clientes: comprou por € 270 mil apartamento de 90 m².

Trata-se de uma leva de brasileiros de classe média e ricos que, nos últimos três anos, encontraram além-mar um Eldorado para fugir da insegurança, do desencanto com a política e da crise.

"É um perfil acolhido com tapete vermelho", constata Maria Rita Faria, cônsul-adjunta do Brasil em Lisboa. "Aqui, desfrutam do seu nível de vida, crianças saem sozinhas em segurança, contam com boas escolas internacionais, além de saúde e educação públicas de qualidade."

Pacote que fez os Schultz deixarem a alardeada qualidade de vida curitibana. "Escapamos da violência", diz Andrea. "Ficamos reféns de bandidos em casa." Ao trauma se soma descrença política. "Só meus netos terão um Brasil sem corrupção."

Dono de produtora de vídeo em Brasília, Nogueira aventou morar em Paris ao concluir que São Paulo, onde vivia a família, era inviável. Foi convencido pela mulher, Juliana Caus, 38, a se estabelecer em Lisboa, com seus 500 mil habitantes, mas com todos os atrativos de capital.

"Ganho dinheiro no Brasil e vivo em Portugal", resume ele, que passa 40 dias lá e 20 aqui. Ponte transatlântica que vale na ponta do lápis. Paga € 100 de condomínio e prestação mais barata que aluguel. "Meus filhos de 13 e 10 anos andam sozinhos de metrô", relata. "Morar em Lisboa é deitar no sofá da avó. É uma sensação de pertencimento."

BILIONÁRIOS

A mulher mais rica de Portugal é uma brasileira, brincam os patrícios ao se referirem a Regina Camargo, 66, herdeira da Camargo Corrêa. Com fortuna estimada em US$ 1,9 bilhão, ela e o marido, Carlos Pires, dono da rede Raia Drogasil, escolheram viver em um prédio restaurado no Chiado, zona mais nobre do centro de Lisboa.

O casal transferiu residência fiscal para o país. Procurados pela reportagem via assessoria do grupo, um dos protagonistas da Lava Jato e em processo de delação premiada, eles não se manifestaram.

O fato é alardeado dos dois lados do Atlântico quando se fala do êxodo recente de pesos-pesados do PIB nacional. Até então, a opção era ter residência de verão em Cascais ou no Estoril, especialmente para famílias com laços de sangue com Portugal, como os Diniz e os Setubal.

Expoentes da nova geração, Ana Maria Diniz, filha mais velha de Abilio, e o marido, Luiz Felipe D'Ávila, reformam um imóvel também no Chiado, onde o metro quadrado pode custar € 10 mil.

DO STF E de BANCOS

Já Gilmar Mendes, ministro do STF, optou por Príncipe Real, outra zona nobre, onde comprou apartamento no ano passado. Com voo direto de Brasília para Lisboa, costuma passar feriados e planeja usufruir mais do imóvel quando se aposentar. "Temos uma comunidade de afetos em Portugal, de cooperação judicial e na academia", diz. "Além de clima amigável em qualquer época do ano."

Altos executivos brasileiros também se dividem entre os dois países. É o caso de Marcos Madureira, 65, vice-presidente do Santander.

Neto de portugueses, o santista restaurou a quinta da família no norte de Portugal. "Morei seis anos na Espanha e comecei a recuperação da casa que pertenceu ao meu avô. É o meu refúgio para viver entre Brasil e Portugal quando me aposentar."

Com um pacote de reformas, a partir de 2012 Portugal começa a se tornar atrativo para investidores e também aposentados que, por exemplo, ganham isenção de impostos por dez anos ao transferir domicílio tributário.

Com vida cultural intensa, excelente gastronomia e custo de vida relativamente baixo, a capital portuguesa virou porto seguro também para nórdicos e franceses, atraídos pelo clima ameno e pelas belas praias. "Na França, vivemos depressão econômica, crise de identidade e medo do terror", elenca François Manceaux, 56, cineasta francês que se divide entre Paris e um apartamento no aprazível bairro da Lapa.

"Portugal se tornou uma espécie de clínica antidepressão da Europa." E meca para um mundo em crise.

‘Custo da má gestão de Dilma é maior que o da lava jato’, avalia economista

Compartilhe esse conteúdo

O economista Eduardo Giannetti da Fonseca diz que os impactos da Operação Lava Jato, que apura corrupção na Petrobrás, podem ter efeitos negativos sobre a economia brasileira, que esboça uma reação, mas afirma que as investigações em curso não deram origem à atual recessão pela qual o Brasil passa. Segundo ele, a má condução do governo Dilma Rousseff, com políticas equivocadas, colocou o Brasil nesta profunda crise, gerando a alta taxa de desemprego. A seguir, trechos da entrevista:

Um levantamento feito pelo ‘Estado’ mostra que as principais empresas envolvidas na Lava Jato demitiram quase 600 mil pessoas As novas delações poderão piorar esse cenário?

O impacto (negativo) indireto sobre o emprego é ainda maior. Afeta toda cadeia, desde os fornecedores até o consumo que deixa de ser feito porque a atividade não aconteceu.

Com as delações que vieram à tona semana retrasada, o impacto da Lava Jato na economia pode ser maior daqui para a frente?

Acho que seria um erro de análise atribuir a atual crise econômica e o desemprego à Lava Jato. Estaríamos em crise e com alta taxa desemprego, independentemente da Lava Jato. Não foi a operação que criou esse problema. Ela ajudou a agravar, uma vez que as decisões tomadas no âmbito da corrupção que a operação está revelando foram péssimos investimentos. Um exemplo é a refinaria Abreu e Lima. Foram gastos dezenas de milhões de reais e nenhum real de retorno. A Lava Jato não causou a crise econômica.

Em outras palavras, a Lava Jato não está diretamente ligada à crise econômica...

Não é o preponderante. Ela é mais o sintoma da crise do que a causa original. Uma coisa é importante esclarecer: o custo econômico da incompetência do governo Dilma é muito maior do que toda a corrupção brasileira, por mais que você superestime essa corrupção. Estamos falando de toda ordem de magnitude. Mesmo na avaliação mais ambiciosa do tamanho da corrupção no País não chega nem perto do custo que teve para a sociedade o acúmulo de equívocos macroeconômicos e de política microeconômicas do governo Dilma.

O sr. se refere só ao governo Dilma ou à gestão petista?

O quadro (econômico) começou a se deteriorar no segundo mandato do governo Lula, após a saída de Palocci (ex-ministro Antônio Palocci). O cenário se agravou e gerou a crise que estamos vivendo no primeiro mandato do governo Dilma, com a adoção da chamada nova matriz macroeconômica e com os erros de políticas microeconômicas nas áreas de energia elétrica, de petróleo e gás, das concessões, do uso do BNDES para favorecer parceiros. Acredito que a corrupção gere muito mais indignação porque é um desvio de responsabilidade moral.

Mas foi o governo Lula que estimulou as políticas de ‘campeãs nacionais’. Isso já não era um indício do início do problema?

O segundo mandato do Lula foi um ensaio. Mas a realização em larga escala desses projetos foi no mandato da Dilma. O Lula ainda tinha um álibi de lidar com o impacto da crise econômica global de 2008 e 2009. Podia justificar que eram medidas anticíclicas para diminuir a crise. No governo Dilma já não foi nada disso. Foi uma convicção equivocada de alocação de recursos e intervenção com mão pesada nos setores elétrico e de óleo e gás, na alocação de crédito... Depois, uma inflação muito alta, reprimindo os preços administrados, o que obrigou a aumentar os juros durante a recessão. De novo, a crise atual não tem nada a ver com a corrupção. Não é a primeira vez que o Brasil passa por crises. Foi assim no governo Geisel (Ernesto Geisel). Dilma gerou uma nova década perdida.

Mas as revelações da Lava Jato agravaram o desemprego?

Agravaram sim.

A situação poderá ficar mais crítica com futuras delações, como a do Palocci?

A Lava Jato é um exemplo da deformação patrimonialista do Estado brasileiro. Governos que comandam junto com segmentos do setor privado o uso dos recursos na economia. Por dois motivos basicamente: o setor privado buscando um atalho de crescimento por meio de acesso privilegiado; e os governantes buscando a perpetuação no poder por meio da cooptação do setor privado. É uma via de mão dupla. Fazem um conluio para se beneficiar - uns com lucro e outros no poder. Isso não envolve todo o empresariado nem todos os políticos. E, de fato, estão faltando dois elos ainda da cadeia da corrupção brasileira: o setor financeiro e o judiciário, que devem ser apurados.

Uma vez que se jogue luz sobre esses dois elos, o cenário econômico e político pode piorar?

Acho que à medida que se instaure no Congresso uma ideia do salve-se quem puder, em que se blindariam os políticos da Lava Jato, corre-se o risco de o governo Temer ficar esvaziado, afetando a governabilidade. O governo está correndo deseperadamente para manter as condições de governabilidade. E ele já sabia que tinha um prazo de validade definido para poder usar o capital político. Com a Lava Jato e com o que ocorreu semana retrasada, esse capital político foi depreciado.

O governo terá condições de dar continuidade às reformas?

O governo já esteve em condições melhores de aprovar a agenda de reformas. Quanto mais o tempo passa, menos ele fica operacional. Ficou mais complexo daqui para frente.

Está mais vulnerável?

Sim. E ele está buscando se reagrupar para reconstituir os mecanismos de sustentação do Congresso Nacional. Mas o risco está em um cenário do salve-se quem puder, em que o Congresso passa a ser muito mais regido pela lógica da sobrevivência a qualquer preço do que uma agenda de reformas que também pode ter custos eleitorais mais à frente.

Mas a equipe econômica está empenhada em fazer os ajustes.

Por mais crítico que se seja ao governo Temer, ele acertou na área econômica. Não só no Ministério da Fazenda, como nas estatais brasileiras, BNDES, Banco Central e com uma agenda correta, baseada na "Uma ponte para o futuro".

Mas há risco sistêmico?

A economia está esboçando reação. Provavelmente, estamos saindo neste primeiro trimestre de uma sequência de 11 trimestres de PIB negativo. Uma pena que uma tempestade política coloque em risco essa recuperação. Institucionalmente, para o Brasil, o mais importante é que esse movimento de apuração se complete. Seria um enorme retrocesso se, em nome de qualquer pretexto, houvesse um conluio de acordo para terminar esse processo tão doloroso que é o da apuração e da punição. O que vai causar prejuízo econômico é a paralisia do governo.

Como o sr. vê o cenário eleitoral para 2018?

A única coisa segura é que a expectativa sobre 2018 está mais aberta do que já era porque os nomes que seriam competitivos e estariam concorrendo provavelmente não chegam vivos até lá.

Os acordos de leniência podem ser uma saída para o Brasil começar do zero?

Não existe começar do zero. Mas você não pode condenar uma Petrobrás e outras empresas pela má ação de parte da diretoria. O País perder as grandes empreiteiras é ruim. Tem de investigar e punir, mas não confundir desmandos de uma diretoria com a nação brasileira.

RN quer reconquistar posto de maior produtor nacional de camarão

Compartilhe esse conteúdo

Nos últimos cinco anos o Rio Grande do Norte perdeu o posto de maior produtor de camarão do país. Nesse período, quem figura como campeão na carcinicultura nacional é o  vizinho estado do Ceará. Ano passado, enquanto os cearenses produziram em torno de 35 mil toneladas, os potiguares ficaram em 15 mil toneladas, conforme dados da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC). Um dos principais fatores para a derrocada da produção local foi a chegada da mancha branca, um vírus mortal para os crustáceos, que pode matar os animais em menos de cinco dias.

Desde 2012 a doença atrapalha os carcinicultores locais. Apesar dos tempos difíceis, o Rio Grande do Norte começa uma lenta recuperação em sua produção. O presidente da ABCC, Itamar Rocha, é otimista quanto a uma reviravolta dos carcinicultores potiguares.

Para ele, em um ou dois anos o estado retoma a liderança do ranking de produção nacional. “Em um ou dois anos o Rio Grande do Norte vai retomar a liderança no setor”, crava Rocha.
Uma vantagem da carcinicultura potiguar sobre a cearense é que a seca não interfere no setor estadual porque a água utilizada é a marinha. “Nossa atividade usa água salgada, do mar, e não há interferência da seca”, explicou o presidente da Associação Brasileira de Criadores de camarão  Itamar Rocha.

Uma das causas para essa futura retomada, de acordo Itamar Rocha, produtor potiguar, é o investimento local em tecnologia, sobretudo, na que combate à mancha branca. “Ano passado o RN produziu 15 mil toneladas e o Ceará 35 mil [toneladas]. Mas o RN está em um processo de recuperação, de desenvolvimento de sua tecnologia. Se todos trabalharem juntos, poder público e os produtores, o estado vai se recuperar em breve”, previu.

GUERRA CONTRA A MANCHA BRANCA

Na batalha contra a doença, que não atinge os humanos, a carcinicultura estadual aparece na frente dos concorrentes nacionais. É pioneira no trabalho com o vírus. Rocha afirma que a mancha branca quando chega a um ambiente não sai mais, contudo, é possível conviver com a doença se os produtores usarem as técnicas corretas. Não há um equipamento específico. Ele diz que os produtores usam técnicas e produtos que regulam a temperatura da água e limpam o ambiente.

Já o presidente da Associação Norte-rio-grandense de Criadores de Camarão (ANCC), Orígenes Monte, confirma que os produtores, de forma  pioneira no país, também utilizam bactérias que não trazem nenhum prejuízo aos camarões, mas ajudam a combater o vírus da mancha branca.

Orígenes Monte, assim como Itamar Rocha, também destaca mais um ponto como essencial para a recuperação prevista do estado no setor do camarão: o novo plano de financiamento garantido pelo Banco do Nordeste para a carcinicultura.

Sendo a região Nordeste a maior produtora de camarão do país, no início deste mês, o banco garantiu aos carcinicultores linhas de financiamento com encargos e prazos adequados ao desenvolvimento da atividade. “O setor ficou em pé de igualdade com outras áreas da economia porque agora temos os mesmos padrões de financiamento de qualquer outro ramo da economia”, esclareceu Orígenes Monte.

Segundo a ABCC, o Banco do Nordeste agora disponibiliza crédito para promover o fortalecimento e a modernização da infraestrutura produtiva do da criação do crustáceo, estimulando a sua competitividade e sustentabilidade, mediante o financiamento de todos os itens necessários à viabilização econômica dos empreendimentos, inclusive os destinados à produção de insumos, beneficiamento, preparação, comercialização e armazenamento da produção, bem como o custeio.

Para isso, destaca Itamar Rocha, é preciso estar com as licenças ambientais em dia e ter cadastro e limite de crédito aprovados no Banco do Nordeste. Com isso, basta apresentar o projeto de financiamento ou a proposta de crédito. Ainda de acordo com a ABCC, produtores rurais familiares dedicados à atividade de carcinicultura têm acesso ao financiamento por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, o Pronaf.

Já os projetos de investimentos apresentados pelos demais produtores rurais (pessoas físicas e jurídicas), observada as regras estabelecidas pela linha de crédito, serão atendidos pelo Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Aquicultura e Pesca (Aquipesca) e outras linhas de financiamento.

“Para conviver com a mancha branca é preciso de investimento e financiamento e uma linha de crédito como a oferecida aos produtores,  agora nos fortalece. A expectativa é a de o RN reassumir sua vocação natural e dará a volta por cima”, espera Itamar Rocha.

PRODUTORES SE PREPARAM 

Nos últimos dois anos, com a promulgação da Lei Cortez Pereira, a legislação potiguar melhorou para os carcinicultores, segundo a própria avaliação do setor. Mas a legislação federal ainda ameaça a produção nacional graças à liberação das importações do produto para o mercado brasileiro. Proibida há quase 20 anos, o Governo Federal está em vias de autorizar as importações de camarão, principalmente do Vietnã e do Equador.

Os criadores de camarão já se movimentam para impedir a chegada da concorrência estrangeira com uma medida provisória, que de acordo com Orígenes Monte, da Associação Norte-rio-grandendense de Criadores de Camarão, está sendo preparada e deverá ficar pronta ainda neste semestre. Para ele, a manutenção da barreira de proteção para as importações do produto é primordial para a produção e recuperação do estado. “O camarão do Vietnã e do Equador não têm o controle que temos aqui, são camarões há muito tempo afetados com doenças”, criticou.

A promulgação da Lei 9.978, de 9 de setembro de 2015, também chamada de Lei Cortez Pereira, é apontada como a terceira causa da recuperação da carcinicultura local. A recente lei foi aprovada em julho de 2015, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte e sancionada pelo governador Robinson Faria em setembro daquele mesmo ano.

Passou então a regulamentar a atividade de carcinicultura local em bases sustentáveis, e trouxe maior celeridade nos processos burocráticos de licenciamento ambiental e segurança jurídica aos criadores. “Depois da Lei Cortez Pereira todo produtor passou a ter segurança jurídica, foi uma vitória para o produtor de camarão”, elogiou Orígenes Monte.