Cerne quer proposta de tecnologia para o Nordeste no Senado

Cerne quer proposta de tecnologia para o Nordeste no Senado

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O Conselho Técnico Científico (CTC) do Centro de Estratégias e Recursos Naturais e Energia (Cerne) quer que as informações debatidas no âmbito da instituição norteiem a  pauta da Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo do Senado no próximo biênio, uma vez que a comissão será agora presidida pela senadora potiguar Fátima Bezerra (PT-RN).
Crise hídrica, seca, transposição do São Francisco. Os temas, que são alguns dos mais ouvidos em debates sobre água no Nordeste, ficaram em segundo plano durante o primeiro ciclo de debates do Conselho Técnico Científico , realizado ontem (29) no Campus Central do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), em Natal.

O foco das palestras foram medidas inovadoras para garantir o abastecimento da região Nordeste, principalmente do semiárido potiguar, o debate é o primeiro de uma série de encontros que será realizados pelo CTC até o fim de 2017. O evento aconteceu na tarde desta quarta-feira (29). De acordo com o diretor-presidente do Cerne, Jean-Paul Prates, o objetivo é do ciclo de debates é levar até a comunidade acadêmica as temáticas debatidas no âmbito interno do conselho.

"Criamos o CTC há cerca de um ano. Como o objetivo do Cerne não é diretamente na área de pesquisa, convidamos pesquisadores e professores de universidades para debater com o empresariado temas de interesse mútuo para gerar soluções inovadoras. Agora, nosso objetivo é que nosso ciclo aumente, seja ampliado a estudantes de graduação, mestrandos e doutorandos, por meio dessas palestras", explica Prates.

Ainda de acordo com o presidente, além da temática da água, outros temas correlatos no que tange à sustentabilidade, como energias renováveis e recursos naturais, também são tratados pelo conselho, que tem uma atuação voltada à região do Nordeste Setentrional – que inclui os estados do RN, PB, PE, CE, PI, MA.

“O objetivo do conselho era realmente levar as preocupações dos diretores técnicos das empresas do setor de energia e de recursos naturais à academia. Atualmente temos reuniões mensais desse conselho, para expor os pontos de preocupação e buscar saídas para estes setores no estado. Não temos nenhuma intenção de tornar esses eventos abertos ao público em solenidades ou cerimônias, queremos que eles sirvam para expandir as temáticas de interesse do conselho e que amplie o debate”, frisa.

Outros quatro ciclos de debates estão previstos pelo Cerne para 2017. Em abril, a temática abordada será o uso da energia fotovoltaica. Em julho, o tema será energia eólica. Em setembro, iniciativas que contribuem para uma cidade sustentável e, finalmente, em novembro, o tema será biocombustíveis.

Pesquisa a serviço do público

Convidado como palestrante do debate, o gerente de meteorologia da Empresa de Pesquisa Agropecuária do estado, Gilmar Bistrot, reforçou a necessidade do uso das pesquisas científicas para embasar a criação de políticas públicas voltadas aos recursos hídricos.

De acordo com Bistrot, que falou sobre o cenário do suprimento de água no RN, o atual período de seca do estado tem ligação com a incidência da atividade solar no período.
“Podemos ver pelos gráficos que os cinco anos de chuva abaixo do normal coincidem com o os períodos em que tivemos uma atividade solar mais intensa”, explicou Bistrot, durante a apresentação.

Como herança, o período seco deixou o estado com pouco mais de 17% do volume total de seus reservatórios (somando a capacidade de todos). Ainda de acordo com o meteorologista, o comportamento inverso pode ser notado no último período de ‘enchentes’ – quando os maiores reservatórios de água do estado alcançaram seus volumes máximos – entre 2009 e 2011: neste período os raios solares tiveram uma das menores incidências dentro do período mapeado. “Temos que reestudar esse efeito da atividade solar e fazer com que essa informação chegue até os tomadores de decisões”, afirmou.

Segundo Prates, a intenção é de que as informações debatidas no âmbito do CTC sirvam para nortear a pauta da Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo do Senado no próximo biênio, uma vez que a comissão será agora presidida pela senadora potiguar Fátima Bezerra (PT-RN).

“Estamos tornando o debate público e pretendemos transformar o resultado disso em uma pauta para ajudar a compor os trabalhos da comissão. No entanto, já definimos que nosso foco tem que ser a água, já que é um problema geral para toda a nossa região e que influencia diretamente não apenas no desenvolvimento, como também no turismo da região – muito ligada às praias e aos rios. Então temos que ter um cuidado especial em relação a isso”, disse Prates.

‘Criar água nova’ é uma necessidade

Além da preocupação com o acesso ao conteúdo teórico que envolve à temática, Jean-Paul afirma que uma das principais conclusões atingidas pelo conselho é a necessidade de se ‘criar água nova’ em todos os estados nordestinos englobados pelo conselho.

“Quando falamos em políticas públicas, muito se fala da transposição, como aconteceu com o São Francisco, e da construção de adutoras, por exemplo. Mas isso é apenas um remanejamento de águas. Chega um momento em que apenas mudar essa água de lugar não é o bastante, temos que criar água nova nesse nosso cenário”, fala.

A ‘criação’ de água a qual se refere o diretor-presidente do Cerne é tornar acessível fontes de água que não vem sendo utilizadas em determinada região. Essa água pode ser proveniente de um processo de otimização na captação de água das chuvas, da integração de bacias hidrográficas ou por dessalinização de água do mar, por exemplo.

“Muito falamos na transposição do São Francisco, mas uma coisa que ainda tem que ser pautada é a integração com a bacia do Tocantins, por exemplo, que pode ajudar a manter perene o nosso ‘Velho Chico’. Esse é um dos temas que queremos levar ao Senado, uma vez que a abundância de água no Norte e a escassez no Nordeste são contrastantes”, prossegue.

Apesar da constatada necessidade de ampliação, o processo de criação de novas águas já funciona efetivamente no RN. Pelo menos é o que garante o consultor em dessalinização e aplicação de engenharia da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), Franklin Rocha.

Durante sua palestra, Rocha apresentou projetos de dessalinização de água tocados pelo Governo do Estado, alguns em parceria com o Governo Federal, para tornar viável o consumo e utilização de determinadas águas em regiões específicas. “Temos alguns programas como o ‘Projeto Água Doce’ que instala dessalinizadores em pequenas propriedades para garantir o acesso à água”, explica. Ainda de acordo com o consultor 99% da água dessalinizada neste processo é proveniente de poços.
“O problema é que muitas vezes furamos esses poços e a água se esgota. A seca contribui para esses recursos subterrâneos acabarem. Sendo assim, não adianta furar poço e usar até esgotar, tem que se fazer um estudo da vazão para valer a pena”, defende.

Ainda de acordo com Rocha, as áreas mais atendidas no estado pelos dessalinizadores são as regiões do Alto Oeste e do Seridó potiguar. As regiões são preferidas em relação a outras localidades do estado pela frequência com que ficam sem acesso a água. Apesar disso, um projeto já em curso estuda a possibilidade de instalar uma usina dessalinizadora em Macau, na Costa Branca potiguar, para abastecer a região com água do mar.
“O local com maior potencial de dessalinização é Macau e alguns fatores contribuem para isso, como a posição estratégica, as condições da água do mar, a grande rede de adutoras que já atende a região e a presença das salineiras, o que permitiria um tratamento do rejeito muito mais simples do que em outras regiões”, disse, concluindo a apresentação.