País pode ter matriz energética 100% limpa até 2050, diz ONG

País pode ter matriz energética 100% limpa até 2050, diz ONG

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A matriz energética brasileira pode ser totalmente renovável e livre de combustíveis fósseis até 2050. Isso é o que defende o estudo Revolução Energética, lançado pelo Greenpeace em agosto e apresentado no IV Fórum Estadual de Energia, realizado quarta-feira (26) em Natal. Atualmente, 58% da energia utilizada no Brasil tem origem de combustíveis fósseis como é o caso do petróleo e gás cujo consumo é puxado principalmente pela indústria e pelo setor de transportes.
 
Em 34 anos, metade da produção energética brasileira será hídrica (50%), a eólica vai representar 25% e a solar, por sua vez, 12%. As demais matrizes serão responsáveis pelos outros 13%. Energia nuclear e as termelétricas com base em carvão já não deveriam mais existir nesse período, aponta o estudo do Greenpeace. 
 
Apesar de ter o maior potencial para produção de energia solar do país, tanto no contexto de energia fotovoltaica e solar concentrada, a região Nordeste e o Rio Grande do Norte não deverão ter o mesmo protagonismo que exerceram e continuarão a exercer na matriz eólica, segundo prevê a pesquisa. 
 
A coordenadora da Campanha de Energias Renováveis do Greenpeace, Bárbara Rubim, explicou que o estudo não levou em conta apenas o potencial de produção, mas também o custo de distribuição da energia. Os pesquisadores dividiram o país em áreas geográficas diferentes - um mapa de acordo com os potenciais de cada região e do que já é produzido atualmente nelas. “Quando a gente faz essa divisão, os resultados são diferenciados porque eles mostram para a gente uma coisa que o governo brasileiro parece ignorar 99% do tempo. É que nem sempre gerar energia onde o maior potencial para aquela fonte está vale a pena se você embute nessa conta os custos de distribuição”, afirmou.
 
Bárbara Rubim explicou que houve até surpresa dos próprios pesquisadores, quando usaram uma “modelagem” - ferramenta que utiliza dados e diretrizes de gestão atuais para projetar o futuro - elaborada pelo DLR, o Centro Aeroespacial Alemão, equivalente à Nasa nos Estados Unidos. 
 
Na energia solar concentrada, dos 26 GW que o Brasil produzirá, 25 GW estarão no Sudeste e apenas 1 GW no Nordeste. “Os 25 GW foram para a região Sudeste não porque lá tem a melhor irradiação, não é o melhor potencial, mas porque o custo de distribuição e os entraves que a gente enfrenta hoje no escoamento não justificariam alocar essa fonte longe do centro onde ela seria consumida, que seria o Sudeste”, avaliou a coordenadora do Greenpeace. Energia solar concentrada é produzida em usinas que utilizam matrizes circulares de espelhos que concentram a luz solar em uma grande torre, aquecendo um fluido. Esse líquido gira turbinas a vapor que geram a eletricidade. 
 
O Nordeste deverá ter maior participação na energia solar fotovoltaica – aquela que é captada com painéis localizados em telhados residenciais, por exemplo. A previsão do estudo é que a região fique com 25% da produção nacional. Ainda assim, a maior parte - 50% - ficará concentrada no Sudeste. Os outros 25% serão distribuídos emoutras regiões do país. 
 
O presidente executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Rodrigo Lopes Sauaia,  garante que esta fonte será estratégica para o sistema brasileiro de energia. “O que nós percebemos é que a fonte está numa trajetória de crescimento, tanto nos projetos de grande porte como os de pequeno porte”, garantiu. Porém, para crescer, o segmento precisa de incentivos, como a redução dos custos e geração de uma indústria local de equipamentos. 
 
Os estados nordestinos continuarão na liderança da produção energética dos ventos, prevê o estudo do Greenpeace. Serão 85 GW de capacidade instalada no país, sendo que a região ficará responsável por 83% do total, ou 71,1 GW. Atual líder na produção nacional, o Rio Grande do Norte é responsável por um terço da energia de matriz eólica gerada no país. Ele bateu o recorde em 2016, com mais de 3 GW. 
 
O avanço das energias limpas e  o fim das atividades nucleares no país,  que também é defendido pelo Greepeace, não envolveria necessidade de ampliação do número de hidrelétricas. “Não é preciso mais nenhuma hidrelétrica na região amazônica, por exemplo, que é sensível”, avalia. 
 
“Brasil é país mais verde do mundo”, diz cônsul dos EUA
 
A cônsul para Assuntos Políticos e Econômicos dos Estados Unidos, em Recife, Paloma González considera que o Brasil é um exemplo a ser seguido pelo mundo. Segundo ela, os norte-americanos têm interesse em trocar experiências com o Brasil e, em um programa criado pelo governo deles no ano passado – o Climate Partners – reflete isso. “A ideia é a troca de conhecimento. E nós já temos facilitado muita troca, não só trazendo palestrantes ao Brasil, mas, por exemplo, em março uma delegação do Pernambuco foi para a Califórnia para visitar os parques solares, usinas de dessalinização”, comentou. 
 
A Califórnia é o estado norte-americano mais avançado em termos de tecnologias voltadas à diminuição da emissão de carbono na atmosfera e possui algumas das maiores usinas de energia solar do mundo, além de contar com projetos de energia eólica e oceânica, por exemplo.
 
De acordo com a cônsul, o Consulado também tem interesse em manter uma relação com o Rio Grande do Norte. “O Brasil é o país mais verde no mundo. A rede de energia elétrica depende da energia verde. Eu acho que os Estados Unidos têm muito que aprender com o Brasil e ver ao Brasil como exemplo”, defendeu.
 
Eficiência energética pode economizar 47% da produção brasileira
 
O Relatório [R]evolução Energética do Greenpeace defende que mais que produção de energia, o Brasil precisa buscar eficiência energética. O país poderá economizar até 47% do uso de sua produção se realizar   mudanças principalmente na infraestrutura de transportes, na indústria e no consumo da população em geral.
 
“A melhor energia do futuro é eficiência energética. É a energia que a gente não usa. É o setor que é o mais ignorado do país de maneira geral. Nós conseguiremos diminuir a demanda total do país em 47% com medidas de eficiência energética. A maioria dessas medidas vão vir no sistema de transportes, não apenas com uma migração muito grande do modal rodoviário para o ferroviário, mas também com uma nova estruturação de transporte de cargas que diminuiria em 15% as viagens que a gente faz hoje de caminhão pelo país”, comenta a coordenadora da Campanha de Energias Renováveis do Greenpeace, Bárbara Rubim. 
 
A coordenadora do Greenpeace reforçou que um levantamento da consultoria independente norte-americana - a Meister Consultants Group - comparou as projeções feitas por várias organizações como a Agência Internacional de Energia e a Nasa e apontou que os relatórios que mais se aproximaram do crescimento das energiais renováveis no mundo, nos últimos anos, foram os do Greenpeace. “Isso mostra que, apesar de a gente às vezes ser vista como uma organização que tem uma visão um pouco agressiva da mudança que a gente precisa ter, o mundo tem, de fato, feito acontecer. Ela se torna cada vez mais necessária”, reforçou.
 
EMPREGOS
Além de tornar o país menos poluente, a proposta da organização geraria mais empregos que num cenário que já reproduzisse as políticas de produção energética atuais. Em 2030, projeta o estudo, haveria 618 mil vagas de emprego vinculadas à geração e às tecnologias de aproveitamento de energia térmica solar e de calor do ambiente. “Além disso, no cenário proposto pelo Greenpeace Brasil, neste ano, haverá 61 empregos por cada petajoule (PJ) de energia primária consumida para gerar eletricidade. No cenário previsto pelo governo, serão apenas 57 empregos por cada PJ”, diz o relatório. 
 
Nos processos de construção, fabricação, manutenção e operação de usinas de geração de eletricidade, o cenário do estudo Revolução Energética prevê 1.247 empregos por cada GW instalado em 2030, contra 1.093 no cenário atual – mantendo-se as políticas e expectativas governamentais. “Com inegáveis ganhos sociais, ambientais e econômicos, fica claro que o ingrediente que falta para acelerar a transição energética para um futuro renovável é vontade política”, diz o estudo.