Coluna do Novo Jornal – 005 – Simples e profundo – 28.09.2010

Coluna do Novo Jornal – 005 – Simples e profundo – 28.09.2010

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Coluna do Novo Jornal – 005 – Simples e profundo – 28.09.2010

Minha quinta publicacao no Novo Jornal foi a respeito de um livro que havia lindo e me encantado por ele. Era tambem uma homenagem a Pablo Capistrano, o escritor potiguar que tem tido enorme exito em levar a filosofia ao alcance das pessoas. Republico aqui esta coluna que muito me apraz.

Boa leitura.

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SIMPLES E PROFUNDO

 A chamada alta cultura, arte erudita e quetais sofrem nos dias de hoje uma concorrência desleal de manifestações populares de fácil assimilação. Vivemos a era das muitas imagens, pouco vocabulário e uma pressa angustiada e irracional por conhecer novidades, muitas vezes é preciso dar uma nova roupagem ao que causa resistência à maioria. Se a cultura perde para os modismos, se ela padece com a preferência pela forma em detrimento do conteúdo, que demos à cultura uma embalagem mais agradável, pois.

Foi exatamente isso que ocorreu, por exemplo, com o maracatu, o coco, a ciranda e outras manifestações nordestinas que vieram à tona com o trabalho de “Chico Sciensce & Nação Zumbi” e outras bandas de sua geração, conseguindo em pouco tempo o que muitos intelectuais e acadêmicos já tentavam havia décadas, sem êxito: chamar a atenção de um público amplo para a cultura popular, as tradições regionais e a riqueza desconhecida do nosso interior. As músicas da Nação e seus contemporâneos mostraram aos jovens de todo o Brasil que havia muita coisa boa em nossas raízes culturais. A reboque da mistura de ritmos promovida por eles, os rapazes e moças de Pernambuco e imediações, foram ao encontro dos artistas que deram origem à série, promovendo o maracatu, os caboclinhos, os bois de Nazaré da Mata e muito mais. Quando os Armoriais se deram conta, o Abril Pro-Rock já estava dançando a ciranda, independente de seus despeitados protestos.

Iniciei o texto, evocando Chico porque consigo enxergar certa semelhança entre o que ele fez nos anos 1990 e o que tem feito o potiguar Pablo Capistrano no final destes anos 00 (lembro que a década de 10 só começa em 2011). Em seu livro “Simples Filosofia” (Editora Rocco, 2009), Pablo, que é filósofo, professor e escritor, reúne 47 crônicas que contam a história da Filosofia, contextualizando historicamente e nos apresentando os grandes vultos do pensamento ocidental.

Seu maior mérito é partir de temas tidos como complexos pelo senso comum e discorrer a respeito com a mesma naturalidade que falaria sobre o último filme do Tarantino, o movimento punk inglês ou a situação cataclísmica do América no campeonato brasileiro. Dessa forma, como já explicita o título, ele simplifica a filosofia, mas sem torná-la superficial. O próprio Pablo já afirmou em entrevistas na época do lançamento que é possível ser simples sem ser raso e que nem sempre o que é complexo é profundo.  

Na primeira crônica do livro, “Desconhecida Íntima”, ele fala o porquê, quando e onde resolveu escrever “na superfície da linguagem, sobre um tema profundo”. Em seguida, enfileira uma sequência de personagens de quem já ouvimos falar, mas nem sempre (ou quase nunca) sabemos direito o que fez ou representou. Em “Mamãe Literatura”, nos apresenta a Friedrich Nietzsche, o homem que trouxe subjetividade ao pensamento filosófico, levando-o para mais próximo da literatura que de uma ciência exata.

E a “dialética”? Quantas vezes não escutamos alguém falar da danada da dialética. Após nos explicar como o termo surgiu a partir dos fragmentos que restaram da obra de Heráclito, ele nos conta que “a dialética nos ensina que nada permanece o mesmo todo o tempo. Que as coisas mudam, tudo é transitório e tudo carrega em si o seu contrário.”

De acordo com o tema, são citados exemplos elucidativos, capazes de nos levar a aprender por associação. Isso revela uma faceta muito evidente da persona do autor: o professor. Em nenhum momento quando escrevia o livro ele saiu da sala de aula, nos adotando como seus alunos, na esperança de que, após aquela experiência lítero-filosófica, aprendamos um pouco que seja. Sua reputação de professor depende disso, depende de nós, seus leitores, seus alunos.

Um dos textos mais divertidos para mim é o “Filosófos e juízes”. Aliás, é bom que se diga, uma das características mais marcantes do livro é o humor, que lhe confere a leveza necessária na difícil missão de fazer deste assunto, ora complexo, algo agradável. Nesta crônica, aprendemos que filósofo significa “amante da sabedoria”. Mas quem seria o marido?, pergunta o jovem Capistrano. Segundo ele, são os juristas, que casam com o saber de “papel passado” e tem “direito a separação parcial de bens e solidariedade em caso de divórcio.”

Outro ótimo exemplo é “O rei filósofo” em que nos é mostrado que nem sempre o mais preparado intelectualmente é o melhor governante, provocando muitas vezes em nós, decepções com a política. Como o exemplo que Pablo nos relata de como Platão se decepcionou com o príncipe de Siracusa, seu pupilo, porque o garoto começou a “matar as aulas de metafísica para assistir às corridas de cavalos, tomar vinho e curtir belas mulheres, numa versão clássica do trinômio agroboy: cachaça, vaquejada e mulher.” Mais ilustrativo, impossível.

Além do tom professoral (no melhor dos sentidos), também é palpável em “Simples Filosofia” que a veia literária do autor o faz conceber premissas e questionamentos diversos que servem como fio condutor de suas crônicas. Em certo momento, ele questiona: “O que é uma vaca?” E a partir daí concluir que “A verdade não está no que a gente vê, mas sim naquilo que a nossa mente pode compreender.” Mais à frente, ele quer saber “O homem é bom?” E utiliza a pergunta para falar do pensamento aristotélico e a teoria de que a nossa humanidade reside em “saber a medida certa das coisas”.

O rosário é extenso. Cada texto de SF discorre sobre assuntos cotidianos, utilizando a filosofia como pano de fundo. Virada a página derradeira, fiquei feliz por ter concluído a leitura de um ótimo livro, mas tive vontade de começar de novo do início. “Simples Filosofia” nos ensina bastante sobre um assunto interessantíssimo. Não é só filosofia. É literatura. E das boas. Serve para alguma coisa? Bem, isso é o que menos importa. Pois, como diz o próprio Pablo: “Filosofia é como sexo oral. Não serve pra nada, mas é legal pra caramba.”