Listão da Assembleia: por que não eu?

Listão da Assembleia: por que não eu?

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Esta semana, abrirei uma exceção e publicarei minha coluna mais recente. Porém, gostaria de postar também duas charges que Ivan Cabral fez com a parceria deste escriba e pitaqueiro. 

Olha como ficaram legais: 

 

Listão da Assembleia: por que não eu?

Meus caros leitores, sinto-me na obrigação de vir a público para esclarecer algumas coisas. Na verdade, trata-se de uma situação um tanto embaraçosa que se criou em torno do meu nome (ou da ausência dele) nos últimos dias. Inclusive, peço perdão se decepcionei alguns que me leem e tanto confiavam em mim. Usarei este espaço para fazer, conjuntamente com vocês, uma reflexão e autocrítica para tentarmos descobrir onde foi que eu errei para que acabasse enredado em tão grande constrangimento. Também aproveitarei para agradecer as muitas manifestações de solidariedade que recebi pela injustiça cometida, sobre a qual, aliás, detalharei logo à frente.

Pois bem, como muitos devem saber, recentemente o portal da transparência da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte disponibilizou em seu sítio virtual na Internet (rede mundial de computadores) a lista completa de todos os servidores do órgão, incluindo cargos, salários, benefícios e descontos. A lista, ou “listão”, como vem sendo chamado em razão do fato de constar de 3.180 nomes (proporcionalmente, uns 134 por parlamentar) causou mais reações efusivas do que o resultado do ENEM por trazer uma quantidade enorme de servidores que, em que pese recebam altos ordenados rigorosamente todos os meses, não trabalham efetivamente no órgão. São os chamados no popular de “fantasmas”: pessoas que recebem para não trabalhar. Constatou-se, após uma análise mais detida que pessoas que exercem alguma influência na sociedade têm empregos na Assembleia ou conseguiram proporcionar generosos vencimentos para os seus parentes.

 

E é justamente neste ponto que reside a estranheza de muitos que me acompanham neste espaço. Como pode o meu nome NÃO fazer parte dessa lista? Onde está minha moral? O que houve com a minha influência? Por que não tive concedido o privilégio de ganhar sem trabalhar? Logo eu que adoraria ter mais tempo livre para ver as séries do Netflix. Eu que moro em Ponta Negra e poderia aproveitar os proventos dos impostos de vocês para ir à praia numa segunda-feira e postar nas redes sociais. Como puderam os senhores Deputados terem se esquecido de mim que gosto tanto de viajar e a última vez que saí do país foi pra ir à Feira do Livro de Mossoró do ano passado? Logo este colunista que também é blogueiro e teria condições de atualizar o blog do Novo Jornal com mais frequência? Talvez até com algumas notinhas positivas e elogios aos senhores.

Vejam bem, eu preencho vários requisitos para estar nessa lista! Tenho espaço cativo na imprensa, sou bem relacionado na cidade, já saí até em colunas sociais (várias vezes) com legendas como “gatón”, “lindão”, “jovem escriba”. Minhas redes sociais bombam, minhas “hashtags” repercutem, os lançamentos dos meus livros lotam (desconfio que mais pela cerveja de graça e apresentações musicais que pelo conteúdo dos mesmos, mas tudo bem: o que vale é o tanto de gente que eu junto e o Ibope que eu dou). Tenho amigos empresários ricos e colunáveis. As festas que eu frequento reúnem quase a totalidade do PIB de Natal. Vários políticos me conhecem pelo nome. E tem mais: sei dizer a frase “você sabe com quem está falando?” em 18 entonações diferentes, tenho conta em banco estatal o que, certamente, facilitaria a transação e poderia muito bem me especializar em esculhambar desafetos de algum padrinho político no Twitter. Ou seja, de certa maneira, vocês é quem estão perdendo.

Puxa vida! Tenho até um amigo deputado estadual, fora outros dois que costumam frequentar os lançamentos da minha editora, mas pelo visto eles não foram meus amigos do peito, pois se têm cerca de 3 mil pessoas com mais moral do que eu numa cidade do tamanho da nossa, já estou vendo que estou mais fraco que caldo de batata. Até peço desculpas pelo desabafo. Sei que a timeline de vocês já deve estar cheia de textões, mas vejam a minha situação! Diante de tamanho absurdo, deste verdadeiro acinte, deste escárnio contra a minha pessoa, acabei virando motivo de piada nos grupos de WhatsApp! Estão dizendo que eu não sou de nada, que não consigo nem um ordenado básico num lugar onde todo mundo consegue. Virei até “meme”. Tá circulando uma foto minha com uma cara triste e a legenda “Por que não eu?” E posso garantir a todos vocês uma coisa: eu desempenharia meu papel de fantasma tão bem quanto qualquer outro, afinal de contas sou tão versado na arte de não trabalhar quanto qualquer um que esteja ali recebendo sem pisar na sede do órgão.

 

Gostaria de encerrar esta indignada coluna com algumas perguntas que talvez vocês possam me ajudar a responder. O que vocês acham que faltou para que eu recebesse um gordo contracheque e constar na lista da AL? Será que faltou elogiar mais alguém? Dei menos tapinhas nas costas do que devia? Talvez, eu tenha frequentado as festas erradas ou os restaurantes. Não sei. Vou pensar bastante a respeito antes de tirar minhas conclusões. Mas, de antemão, já adianto uma preocupação com relação à passeata “contra a corrupção” que ocorreria no próximo dia 13 de março em Natal. É que com tantos possíveis participantes envolvidos no esquema, acredito que a manifestação acabe esvaziada, o que seria uma pena. Então, gostaria de fazer um apelo aos manifestantes que, por acaso, figurem na lista dos que recebem sem trabalhar e estejam pensando em desistir de ir ao evento, deem o exemplo e façam diferente do que fazem na Assembleia: APAREÇAM!

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- #SigaAquelaMaga – Nina Barbalho