O Alvorecer de um novo tempo.

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O Alvorecer de um novo tempo.

Bom dia, meus amigos. Vocês notaram que o sol voltou a brilhar no céu da pátria nesse instante? Que o mar está mais verde, o mundo mais feliz, o sorriso aberto estampado no rosto de cada brasileiro (até do William Waack! Vejam só: ATÉ DO WILLIAM WAACK, MEU DEUS!) denuncia que chegamos a um novo tempo, a uma nova era prometida e há muito merecida por cada brasileiro, esse povo esforçado, sofredor, mas que agora poderá ver recompensada sua luta em prol de uma vida melhor. Eu, assim como todos vocês, estou exultante com a chegada de um grupo de homens, ungidos por Deus, obstinados a resgatar o país do fundo deste poço no qual se encontra preso, imobilizado. Homens de bem, dispostos a se unir em torno de um projeto comum, apesar de suas diferenças. A felicidade que marca esta nova era é contagiante. Comigo, portanto, não poderia ser diferente. Permiti-me contaminar.

Por isso, é com muita alegria que venho aqui anunciar a todos vocês e também às representantes do mundo feminino que: mudei. Acordei hoje disposto a deixar para trás as disputas, a seguir em frente, a construir junto com todos os meus leitores uma ponte de entendimento que nos conduzirá a um novo tempo de bem estar e prosperidade. Uma ponte de todos, uma ponte para o futuro! É isso mesmo que vocês estão lendo. Resolvi aderir. A partir deste momento, tomando a presente coluna como ponto de partida, anuncio oficialmente meu ingresso de corpo, alma e militância no recém empossado e promissor governo do senhor presidente Michel Temer.

Por favor, não me levem a mal. Vocês precisam entender. É que eu simplesmente caí na real. Tomado por um sentimento de arrebatamento pelo fim da corrupção e pela reversão de expectativa observada desde a semana passada, quando logo após a sessão do Senado que impediu a presidenta Dilma, decretou-se o fim da corrupção no Brasil, encontro-me em estado de graça. Sempre sonhei em ver o Brasil livre dos mal feitos e, agora que conseguimos, juntos, nós: o povo brasileiro, que fomos às ruas pedir o Impeachment, podemos tocar outros projetos de extrema importância para o país. E vamos conquistar bastante porque agora tudo mudou. O clima é de união. Não tem mais aquela coisa de “nós e eles”, todo mundo agora está de um mesmo lado, o lado do Brasil. Acabou-se aquele papo petralha-bolivariano-comunista-gayzista-feminista-abortista-ramsay-bolton que pairava sobre nós como pesadas nuvens de chuva a nos castigar.

Tem também o fato de eu ter feito uma auto-análise, uma autocrítica contundente e concluir que não me restava outra alternativa. Eu já andava meio por fora em grupos de amigos, ex-colegas de escola e em tantos outros lugares. O Novo Jornal vinha recebendo e-mails reclamando da linha seguida pela minha coluna. Teve uma mulher que não poupou críticas, comparando-me a artistas da laia de Chico Buarque e Luís Fernando Veríssimo. Nossa, como é duro isso! Agora, poderei dizer a ela que estou do lado dos bons: Alexandre Frota, Lobão e Suzana Vieira. Ah, sim, claro! Tem várias pessoas da minha família filiadas ao PMDB. Ou seja: sangue “golpista” corre em minhas veias. Estava na hora de aderir.

Aliás, não me venham dizer que vocês não enxergaram também. Como dizia Micarla: !só não vê quem não quer”. Os sinais estão em todos os lugares. Até o presidente da Assembleia Legislativa local, converteu-se, virou tucano, colocando uma pedra sobre quaisquer questionamentos acerca dos funcionários fantasmas do órgão. As TVs, os jornais e os portais também já anunciam os bons ventos a soprar prosperidade. O Dólar alto, por exemplo: é ótimo! Atrai turistas, gera divisas para o país. Eles apenas não tinham se dado conta ainda, mas agora todos perceberam. E a inflação? É uma oportunidade para que as pessoas trabalhem mais e deixem dessa indolência alimentada por programas sociais corrosivos ao ânimo do trabalhador. A ordem agora é uma só: “não pense em crise, trabalhe!” E o déficit público? Antes era imoral, agora é necessário. Pra vocês verem como a gente consegue perceber melhor as coisas quando observemos melhor, sem aquele problema da corrupção que nos afligia de tal forma que nos impedia de enxergar a verdade que estava bem à nossa frente. O juiz Moro já pode até ir fazer propaganda de Rider: “dê férias para os seus pés.” Que alegria, né não?

Claro que, num primeiro momento, fica o estranhamento, né verdade? O que fazer agora que estamos livres da corrupção? Logo agora que eu tinha comprado um novo conjunto de panelas e já estava pronto para estrear na próxima manifestação dominical? E os textões em redes sociais? Contra quem ou o que, a gente vai se revoltar? Haja vídeos de cachorros e gatos, fotos de comida e selfies para suprir este vazio em nossas postagens. Mas, enfim, toda transição exige um tempo de adaptação, por melhor que seja a nova situação.

A única coisa a me deixar um pouco contrariado é perceber que ainda existe uma minoria, aliás, diversas minorias, protestando contra algumas atitudes firmes, porém necessárias, que o novo governo precisou tomar. Mas é como diz um pai ao dar um carão num filho: “é pro seu bem!” O fim do Minc, por exemplo. No novo Brasil, cultura não é um bem essencial, temos outras prioridades. A nomeação de 8 indiciados pela Lavajato para serem ministros sem que nenhum promotor ou juiz federal tenha tomado uma atitude. A ausência de mulheres, negros e outras minorias no primeiro escalão, ignorando que há muitas delas nas divisões subalternas do serviço público.

Mas tenho certeza que isso não passa de uma implicância de uma turma de amigos que gosta de ser “do contra”, que iniste em aparecer. Inclusive, já percebi: tem muito artista no meio. Mas não é disso que artista gosta? De performance? Então? Tá explicado.

Agora, é seguir em frente, com um sorriso no rosto, e o futuro do Brasil em mente!