O crime de pensamento

O crime de pensamento

Compartilhe esse conteúdo

Esta semana, mais uma vez, abrirei uma exceção e publicarei a coluna da última terça. Desta vez, faço-o em razão da gravidade do que se está tentando fazer no Brasil, com a intimidação de professores por parte de setores mais conservadores da sociedade e a criminalizando do pensamento. Toda minha solidariedade aos profissionais da educação!

***

O crime de pensamento

Há alguns dias, um juiz de direito de Natal acusou uma escola privada da cidade de ter em seu corpo docente uma professora que “destila ideologia e mentiras”. Afirmou que, se tivesse filhos estudando no colégio, eles seriam transferidos para outra escola logo conseguisse a vaga. Exigiu a demissão da profissional, afirmando que, “se ela continua ensinando lá (tendo recebido uma mera admoestação verbal da direção) é porque tem o apoio da escola.”  Encerrou pregando contra o que chamou de “embuste ideológico em sala de aula” e finalizou o desabafo dizendo que a escola em questão não tem mais seu respeito.  Para ele, o fato de a escola ser religiosa é um fator agravante da questão e, nesse particular, não pude evitar de ouvir ecos da votação da sessão pelo Impeachment na Câmara dos Deputados, quando tantos parlamentares justificaram seus votos como motivados por Deus e não pelas razões que verdadeiramente motivaram o processo. Ao ser ouvido pela reportagem deste NOVO JORNAL, o juiz admitiu que soube do caso pela imprensa e que a postagem em rede social representava uma posição meramente pessoal sua. Claro que, em se tratando de alguém que ocupa um alto cargo, suas palavras destinadas ao colégio e à profissional do ensino ganham acabam por ter outro peso e um efeito poderoso: o de intimidar a instituição e a educadora.

 

Li a notícia sobre o episódio acima com preocupação. Não quero aqui julgar o magistrado ou a escola, tanto que omiti o nome de ambos, já que não vem ao caso citá-los. Além disso, não quero repetir o equívoco que, na minha opinião, o meritíssimo cometeu ao “julgar” apressadamente uma instituição e uma profissional de ensino, sugerindo inclusive sua “condenação” (demissão) sem deter subsídios suficientes que pudessem embasar tal “decisão”.

 

Porém o posicionamento que ele expressou é um indício claro de algo maior, de uma tendência que vem ganhando força no inconsciente coletivo da nossa sociedade e que já virou até projeto no Congresso Nacional, evidenciando ainda mais o perigoso caminho à direita para o qual estamos sendo conduzidos coercitivamente: o da criminalização do pensamento, da intolerância endereçada a todos aqueles que não comungam da mesma opinião de alguns grupos. O juiz acusou a professora de contar “mentiras”, como se ele próprio fosse o dono da verdade. Logo, fica a impressão que a professora cometeu uma grave falta no Brasil de hoje: a de discordar do outro.

 

Pelo que o Novo Jornal apurou, a professora declarou-se contrária ao processo de Impeachment em andamento no Congresso Nacional. Porém, nenhum de nós (nem eu, nem o magistrado e talvez nem você que me lê gora) sabe em que contexto isso se deu. Porque, se os próprios alunos tiverem perguntado a ela qual a sua opinião, o que mais ela poderia fazer a não ser expressá-la? E, pergunto a vocês: dizer o que pensa é passível de punição? Os professores devem repetir em sala de aula a cartilha ideológica dos pais dos alunos? É preciso ter um manual de conduta dizendo que linha de pensamento deve ser seguida pelos estudantes? E como é que não se vai tomar posição quando um professor estiver ensinando história e chegar no capítulo da Segunda Guerra Mundial, minha gente? “Vejam bem, Hitler matou 6 milhões de judeus, mas não posso aqui dizer diante de vocês se isso foi certo ou errado porque senão estarei cometendo o crime de doutrinação em sala de aula, OK?”

 

Quando eu era estudante de ensino fundamental, tive professores muito bons, que expressavam opiniões, mas nos instigavam a pensar. E perguntávamos a eles o que achavam do que estava ocorrendo no país. Lembro-me que Eudes, de História, após ser instigado por nós, declarou-se a favor do Parlamentarismo no plebiscito realizado em 1993. Nem por isso, mudou minha posição que era a da manutenção do presidencialismo. Porque meus professores tinham opinião e expressavam seus pensamentos, mas estimulavam que fizéssemos o mesmo a fim de formar nossa própria personalidade.

 

O professor Eudes, aliás, é o exemplo que dou para rebater o argumento da suposta “doutrinação ideológica” ou “embuste ideológico contra crianças indefesas”. Ele sempre nos explicava os riscos de um regime totalitário e pedia para que estudássemos história para que nunca apoiássemos ditaduras ou movimentos totalitários como o nazismo que ele fazia questão de nos explicar o que tinha sido e como aquele era um mal presente até os tempos atuais nas sociedades ocidentais. Pois bem, se o professor lesse o que vários de seus ex-alunos, meus ex-colegas de escola, escrevem no grupo que temos no WhatsApp, defendendo ditadores, torturadores e políticos que os exaltam, certamente ficaria frustrado.

 

Não há como não traçar um paralelo entre o que ocorre no Brasil atual e muitos aspectos do enredo do livro “1984” de George Orwell. Em coluna anterior, já me referi aos “2 minutos de ódio”. Mas também é possível entrever nas reações histéricas e desequilibradas de uma classe média que reproduz discursos ditados pelos mais ricos através da mídia, e em opiniões como a que motivou este texto, com o “Crime de pensamento” descrito no romance. Na ficção, as autoridades (tal qual as classes dominantes brasileiras e a imprensa têm feito) tentam controlar as falas e ações dos seus cidadãos, penalizando aqueles que verbalizem o que não é permitido pela lei. A diferença é que, na ficção, eles também desenvolvem técnicas que supõem identificar os pensamentos das pessoas, rotulando os pensamentos desaprovados pelo termo crime de pensamento. Na ficção, inclusive, existe uma "Polícia do Pensamento" e este termo, por extensão, passou a se referir à imposição de correção ideológica em qualquer contexto moderno ou histórico.

 

A polícia da opinião ou do pensamento, infelizmente, é uma verdade no Brasil hoje. Tem atuado ostensivamente nas ruas e transformado o Facebook em seu tribunal preferido. Um dia chega a nossa hora. Ou não.