Trocadalhos do Carito: uma análise hiperbólica.

Trocadalhos do Carito: uma análise hiperbólica.

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Atendendo a pedidos, posto aqui a coluna de hoje. 

Só peço a vocês que, por favor, não digam ao Novo Jornal que eu publiquei senão o editor Carlos Magno manda cortar meu salário e sai por aí denegrindo minha imagem nas redes sociais. 

Segue o texto: 

Trocadalhos do Carito: uma análise hiperbólica.

 

O trocadilho é a figura de linguagem chamada formalmente como paranomásia. Trata-se do emprego de palavras semelhantes na forma ou no som, mas de sentidos diferentes. Sempre foi utilizado como exercício de criatividade e recurso bem humorado, surpreendendo os receptores desprevenidos, contrariando a obviedade das estruturas pré-estabelecidas e diferindo os emissores entre aqueles que sabem utiliza-lo com sagacidade, os que optam por manter-se na obscuridade da comunicação direta e sem floreios e não recorrem a ele nunca, e os que o usam mal e são recriminados pela sociedade em razão disto, apontados como os “Tios do Pavê” graças à clássica e infame piada: “É pavê ou pá cumê?”

 

Nos anos 1990, graças ao Plano Real e à consequente estabilidade econômica, a publicidade brasileira experimentou um notável crescimento, profissionalizando-se e ganhando destaque mundial nos prêmios de criatividade internacionais e festivais de publicidade mundo afora. Por aqui, muitos redatores geniais edificaram carreiras e acumularam fortunas ao elaborar textos publicitários baseados na sagaz utilização de trocadilhos em anúncios que estamparam anuários publicitários. Como a imaginação dos profissionais do setor desconhecia limites, criaram ainda os “trocadilhos visuais”, com montagens fotográficas muito bem executadas em programas de computador como Photoshop nas quais se realizavam fusões de dois ou mais elementos para se passar uma mensagem.

 

No entanto, como tudo o que se faz em excesso, logo veio o desgaste e numa atividade tão entregue aos modismos e às tendências, logo o trocadilho passou a ser encarado como algo ultrapassado, datado, decadente e renegado pelos mesmos profissionais que até bem pouco haviam construído toda uma indústria criativa utilizando-o como bengala ou mola propulsora que os conduziu a um patamar superior de relativa fama e confortável situação econômica. Se antes, entravam em êxtase a cada nova descoberta trocadilhosa que pudesse arrancar sorrisos cúmplices dos leitores, clientes ou consumidores. Agora, era com desdém e deboche que lubrificavam sua ingratidão, tratando o bom e velho recurso linguístico que se vale da criatividade para existir e ser considerado eficaz, com legítimo preconceito, rotulando (existe algo mais publicitário que colocar rótulos?) o trocadilho como algo de “menor valor agregado”, praticamente proibindo sua utilização e disseminando a mensagem de que era uma figura de linguagem extremamente brega.

 

Também contribuiu para a imagem deturpada que este belo recurso linguístico tem diante de uma sociedade, sempre ávida para julgar os demais, o uso equivocado e repetitivo que muitos amadores deram às palavras que, se combinadas de forma errada ou irresponsável, acabam resultando em trocadilhos ruins. São os já citados “Tios do Pavê” que infernizam as reuniões familiares e as vidas de todos nós e que manuseiam esta valiosa porção da língua portuguesa, que merece atenção e capricho de um ourives no auge do seu talento e na plenitude de sua habilidade, com o mesmo cuidado que uma criança de 3 anos opera uma sub-metralhadora diante de uma multidão. Graças a estes deploráveis agentes do mau gosto que são os tios do pavê, os cidadãos comuns criaram até mesmo um gesto pejorativo para designar um trocadilho ruim, separando bem os dedos indicador e polegar e sacudindo-os em movimento que lembra o de uma gangorra.

 

Agora, tudo parecia definitivo. O preconceito espalhado como um vírus implacável havia determinado a morte do trocadilho, classificando-o como uma enfermidade incurável e seus adeptos de degenerados, de quem era necessário apartar-se dado o caráter infeccioso dos males que enfrentavam. Estava decretado: todo o trocadilho era ruim. E parecia que nada poderia mudar isso.

 

Felizmente, só parecia.

 

A salvação veio da maneira mais sublime que se poderia conceber, através da poesia. E o herói, multifacetado e de enorme talento, surgiu como nos grandes épicos da literatura ou nas mais proeminentes mitologias, como um salvador que atendeu a um chamado místico a fim de redimir, com bravura e ousadia, o tão maltratado trocadilho através de seus versos inspirados. Seu nome é Carito Cavalcanti e sozinho, não só reverteu num instante o estrago que o mercado publicitário brasileiro levou anos para causar como também alçou esta peça de retórica ao status de arte combinando palavras com tal maestria que praticamente imprimiu um estilo próprio, pós-leminskiano, na poesia nacional.

 

Confundo

O raso

Confundo

 

Carito é daqueles que, quando a massa ignara, a turba ensandecida e a multidão simplória, que todos nós formamos, olha numa direção, ele insiste em lançar olhos de visionário apontando o caminho que só os gênios são capazes de enxergar. Sua poesia é bem-humorada, criativa, cativante, dotada de um poder de sedução irresistível, capaz de arrebatar corações infantes, conquistando os mais jovens para o mundo da leitura, cumprindo assim a nobre missão de catequisar milhares de adolescentes para que se entreguem de corpo e alma ao universo da literatura.

 

Se o Pierrot

quem acertou

o coração da Colombina?

 

Com o grande destaque obtido por seus textos, seja através do livro “Atestado de órbita”, ou pela repercussão que seus textos passaram a ter nas redes sociais, Carito logo veio a exercer influência nas obras de outros poetas, firmando-se como um modelo literário contemporâneo, lido, pesquisado e admirado. O resultado é a disseminação do seu estilo por meio da publicação de diversos livros que beberam em sua fonte de inesgotável valor.

 

Hoje eu saio para pescar

Anchova ou faça sol

 

Tais contribuições ao estímulo à leitura entre jovens e à obra de novos poetas locais já seriam dignas de louvor. Porém, a mais grandiosa e inestimável ação de Carito foi mesmo pela remissão dos trocadilhos, devolvendo-os ao posto que lhes é de direito: o de pequenas pérolas de sabedoria que podem (e devem) ser difundidos com orgulho através da poesia de rara felicidade escrita por este grande autor brasileiro.

 

Não sou a capital do Egito

Não sou Cairo

Mas me chamam Carito