A história por trás da senhora que pede esmola em passarela de Natal

A história por trás da senhora que pede esmola em passarela de Natal

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“É difícil eu vir aqui, porque agora tô com meus quatro netos em casa. Mas, quando falta a comida deles eu venho aqui pedir.  Eu não trago nenhum pra rua pra pedir esmola. Deixo eles na escola e venho pra cá. Quero ver a melhora deles. Se eu trouxer eles pra cá, eu vou ensiná-los a pedir esmola e eu não quero essa vida pra eles”, me disse Dona Francisca, aos 67 anos, quando a entrevistei (numa contribuição para uma página que, originalmente, contava a história dos “invisíveis” de Natal) pela primeira vez, há dois anos.

Conhecida de quem rotineiramente atravessa a passarela entre o Natal Shopping e o Via Direta, ela não escondia o esforço de viajar mais de 70 km, de Santo Antônio do Salto da Onça até Natal, “quando seca um bujão de gás, ou quando preciso para inteirar no aluguel”, já que as dores no corpo a impediam de trabalhar e garantir dinheiro suficiente para sustentar os quatro netos que ela passou a criar depois que a filha dela, mãe das crianças, morreu no parto do mais novo.
 
 
Mesmo tirando, na época, entre quinze e vinte reais das esmolas e tendo que pagar pouco mais de cinco reais na passagem de ônibus, ela dizia que era a única solução para ela “comprar umas coisinhas, fazer uma sopinha pra eles”. Nesta terça-feira, 8, quando a encontrei novamente, a necessidade era mais específica: os gastos comprando galões de água (o município enfrenta uma crise hídrica há três meses) para cozinhar, tomar banho e lavar a roupa “e a farda” dos netos e uma dívida de R$40 num mercadinho onde ela pega comida fiado.
 
“Eu sofro por eles. Tô aqui por eles. Pelo alimento das crianças. Quero comprar uns tijolos, um cimento para fazer um tanque (cisterna) para guardar água. Porque tô comprando garrafa de água por R$3,50 para beber e cozinhar e ainda tem a roupa dos meninos para lavar”, contou.
 
Quando disse que escreveria sobre ela de novo, os olhos brilharam e o sorriso tomou conta do seu rosto. “Da outra vez, muitas pessoas ajudaram. Trouxeram sacolão, roupa…”. Perguntei quando ela voltaria de novo. “Sexta-feira (11). Só não venho antes porque tenho que ir garantir a matrícula dos netos para o ano que vem”.