O que as grandes cidades podem aprender com a seca do semiárido?

O que as grandes cidades podem aprender com a seca do semiárido?

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O agricultor Sebastião Ferreira vive com sua esposa, Maria das Dores, há 42 anos no Sítio Cabeleira. A propriedade de 16 hectares (equivalente a dezesseis campos de futebol) fica na área rural de Assu, município a 210 km da capital do Rio Grande do Norte, Natal.

De moto, saindo da rodoviária de Assu até o distrito Lagoa do Poré são 30 minutos de estrada pela RN-016. Daí em diante, são 12 km de uma estradinha de areia fofa, cercada pela vegetação seca da caatinga e sem qualquer sinal de construções. O único vestígio de civilização até chegar ao sítio do “seu Sebastião” são as várias estações de captação de petróleo da Petrobras, os “cavalinhos de petróleo” como dizem os locais.

O fim da estradinha de areia leva ao Assentamento Nova Descoberta, já na divisa entre Assu e Carnaubais, cidade vizinha. Mas, antes, num pequeno clarão da vegetação, encontra-se a entrada para o Cabeleira, reconhecida apenas pelo piloto da moto, neto de Sebastião.

A casa simples e aconchegante condiz com o casal de moradores, que prontamente recebe as visitas. “Sebastião, a moça veio fazer umas perguntas pra você”, diz Maria das Dores ao marido. Ele, que estava cochilando, prontamente se levantou.

Hoje aposentado, Sebastião, 62 anos, tem 40 cabras, quatro cabeças de gado e algumas galinhas-d’angola soltas pelo sítio. Tudo o que os animais produzem é destinado para consumo do casal. “Não vendemos porque em tempo de seca eles produzem pouco”, explica Sebastião.

Era fim de outubro, mas desde junho não chovia na região. A estiagem fez secar até o pequeno açude cavado pelo agricultor em 1982, durante uma seca histórica. A cisterna, também construída por ele, e o tanque que capta água da chuva através das calhas no telhado são os únicos reservatórios cheios naquela área.

Ambos foram abastecidos por um único caminhão-pipa de 12 mil litros enviado pela Prefeitura de Carnaubais durante o período de seca, que costuma ser entre julho e janeiro. “A água dura mais ou menos um mês e serve pra gente beber, tomar banho, lavar a roupa e a louça e também pra dar de beber aos bichos”, explica Sebastião.

“Agora aqui está muito bom. Antigamente não aparecia carro-pipa, não. A gente só usava o que conseguia pegar nas biqueiras (calhas) e no barreiro (pequeno açude). Quando faltava, a gente precisava buscar água lá no rio Açu (na entrada da cidade). De jumento, eram quatro horas de viagem. A energia elétrica chegou aqui em março desse ano. Antes era só lamparina”, desabafa.

Relação de preservação

Sebastião e Maria das Dores fazem parte de um novo perfil apontado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): o casal é um reflexo do sertanejo adaptado à seca. Desde o Censo Demográfico de 1991 o órgão vem apontando uma diminuição marcante no número de migrações do Nordeste para o Sudeste em função da falta d'água. Entre 2000 a 2010 a queda foi de 37,5%, a maior dos últimos anos.

Desde jovens, a relação do casal com a água sempre foi de preservação. “A gente não pode desperdiçar porque tem pouca", diz Maria das Dores. "Ele só não gosta de quando eu uso água pra molhar essas plantinhas de jardim aqui porque elas não produzem nada, só beleza”, brinca, mostrando as flores.

“Eu vejo na TV que lá em São Paulo também é a maior escassez de água e que até brigam por isso. Outro dia vi que a polícia precisou acompanhar um carro-pipa pra ele não desviar o caminho”, diz, estarrecido, Sebastião. “Só que lá tem rio dentro da cidade cheio de água suja. Eles não preservam pra poder usar e agora estão assim, dependendo dos rios secos”, critica o aposentado.