Fundador da ‘FDN’ também é líder do ‘Sindicato do RN'

Fundador da ‘FDN’ também é líder do ‘Sindicato do RN'

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Um dos traficantes fundadores da Família do Norte, facção que realizou o massacre dentro do Complexo Penitenciário Anísio Jobim - em Manaus - no início desta semana, é também líder do Sindicato do RN, a associação criminosa potiguar responsável pelos ataques ocorridos no ano passado em diferentes cidades do estado. A informação é da Justiça Estadual.
 
Trata-se de Gelson Lima Carnaúba, que está detido no Paraná, mas já ficou encarcerado em Alcaçuz por quase um mês, em 2015.
 
De acordo com uma expedição de ofício que consta no site do Tribunal de Justiça do RN, em outubro do ano passado foi solicitado o retorno de Carnaúba para o Rio Grande do Norte. Ele está preso na Penitenciária Federal de Catanduvas (PR), e o período para a reclusão na unidade federal teria acabado.
 
Segundo explicou o juiz da vara de Execuções Penais de Natal, Henrique Baltazar, a permanência em presídio federal tem limite de um ano, renovável por mais um.
Ao se deparar com a determinação, a juíza Maria Nivalda Neco Torquato Lopes argumentou que o criminoso não poderia voltar para o estado, visto que é um dos líderes da facção Sindicato do RN, e o sistema penitenciário potiguar vive momento difícil, com recorrentes fugas e fragilidade em suas unidades carcerárias.
 
“Cabe destacar que o reeducando é apontado como um dos líderes do Sindicato do RN, facção criminosa que atua atualmente no Estado do Rio Grande do Norte, segregando presos em unidades prisionais, executando membros rivais das facções, e comandado crimes dentro e fora do sistema prisional”, diz a magistrada no processo.
 
A juíza argumentou ainda que o retorno de Gelson Carnaúba ao RN facilitaria a comunicação entre as organizações criminosas, por conta de sua relação com as facções, e pede que a Justiça Federal aceite a renovação do período de permanência.
 
Gelson Carnaúba, ou Mano G, estava foragido do sistema penitenciário amazonense quando foi preso no Aeroporto Internacional Aluízio Alves, em janeiro 2015. Acompanhado de Francinaldo dos Santos Silva, que é conhecido o “Cinta Larga”, Carnaúba portava documentos falsos.
 
Ele foi detido pela Polícia Federal e encaminhado à Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Nísia Floresta, onde permaneceu por quase um mês. Depois disso, a pedido da PF, Carnaúba foi transferido para a Penitenciária Federal de Mossoró, por ser considerado um detento de alta periculosidade.
 
Em julho do mesmo ano foi levado para o Presídio Federal de Catanduvas, no Paraná. Meses mais tarde, em novembro de 2015, a Polícia Federal deflagrou no Amazonas a Operação La Muralla, com o objetivo de desarticular uma facção transnacional especializada no tráfico internacional de drogas: a Família do Norte – FDN.
 
Nesta ocasião, foi expedido um mandado de prisão para Gelson Carnaúba, apontado como um dos cabeças da facção. O mandado foi endereçado ao Rio Grande do Norte, pois a Justiça do Amazonas ainda não sabia da transferência do traficante para o estado paranaense.
 
Segundo o inquérito da PF que investigou a atuação da FDN, ao qual o NOVO teve acesso, a organização criminosa tentou negociar o retorno de Mano G para Manaus quando ele ainda estava em Mossoró, através de um esquema de corrupção que envolvia um desembargador, um juiz e um delegado de polícia. 
 
A Polícia Federal afirma no documento que as apurações apontam para um acordo de pagamento de R$ 150 mil para as autoridades e mais R$ 50 mil para os dois advogados (um homem e uma mulher) que intermediariam o esquema. Estes seriam os “advogados oficiais da facção”, ainda segundo o inquérito da PF.
 
Considerado um dos criminosos mais perigosos do país, Carnaúba segue detido na carceragem federal paranaense. O NOVO procurou alguns promotores do MP/RN para saber mais informações sobre a atuação de Gelson no RN, contudo não obteve resposta. Junto à PF do RN, a reportagem tentou contato e as ligações não foram atendidas pela assessoria de comunicação.
 
Advogada do Sindicato do RN atua na defesa de Mano G
 
O site de consultas processuais da Justiça Estadual indica que há dois processos contra Gelson Lima Carnaúba tramitando no RN. Um deles trata de um homicídio simples, pelo qual Mano G é acusado de ser o autor.
 
No outro, ainda em trâmite na segunda instância, trata da acusação de falsidade ideológica. Este é o processo resultado da prisão de Gelson no Aeroporto Internacional Aluízio Alves, em janeiro de 2015.
 
O sistema informacional do TJ informa que a advogada de Gelson Carnaúba para ambas as causas é Paloma Gurgel de Oliveira Cerqueira. Foi ela também que impetrou, em abril de 2016, um habeas corpus em favor do cliente líder da Família do Norte.
 
Paloma Gurgel foi citada na Operação Medellín, deflagrada em setembro pelo Ministério Público do Rio Grande do Norte. De acordo com as investigações do MP, a advogada integrava um dos núcleos criminosos do Sindicato do RN desarticulados durante a ação.
 
Este grupo seria liderado, segundo o MP, por João Maria Santos de Oliveira, o João Mago, preso em agosto do ano passado no condomínio Parque Morumbi, em Parnamirim. Na ocasião ele portava R$ 300 mil em dinheiro, além de droga e diversos aparelhos celulares.
 
Ainda segundo as investigações do Ministério Público do RN, há indícios de que Paloma Gurgel infringiu normas penais, ultrapassando a função de advogada e “passou a atuar no sentido oposto do que determina o Código de Ética da OAB”.
 
Ela, inclusive, foi alvo de um atentado ocorrido em dezembro de 2015. Na ocasião, a advogada foi atingida por três disparos de arma de fogo.O atentado aconteceu no cruzamento das avenidas das Alagoas e Ayrton Senna, no bairro de Neópolis, na Zona Sul de Natal. Dois homens em uma motocicleta dispararam contra Paloma Gurgel, que chegou a ser hospitalizada, porém se recuperou bem dos ferimentos. 
 
Família do Norte
 
O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, afirmou ontem que as autoridades do Amazonas sabiam que detentos do Complexo Penitenciário Anísio Jobim planejavam uma fuga entre o Natal e o Ano Novo.
 
Moraes disse que, por conta disso, a Secretaria de Segurança estadual reforçou o monitoramento na unidade. Além da rebelião, que resultou na morte de 60 detentos, houve também a fuga de quase 200 presos da penitenciária no mesmo período.
 
O massacre no Complexo Penitenciário em Manaus é mais um capítulo da disputa de poder entre as maiores facções criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), e revela como o tráfico transnacional de drogas transformou-se em uma atividade organizada por facções.
 
Responsável pelas mortes, a Família do Norte (FDN) é um dos grupos que surgiram nos estados para conter o PCC. A FDN é apontada pela PF como a terceira maior organização criminosa do país.
 
A Família é resultado da união de dois grandes traficantes: Gelson Lima Carnaúba, o Mano G, e José Roberto Fernandes Barbosa, o Pertuba. Segundo a PF, após passarem uma temporada cumprindo pena em presídios federais, os dois retornaram para Manaus, em 2006, determinados a se estruturarem como uma facção criminosa.
 
O resultado é o grupo que foi alvo da operação La Muralla, em 2015, flagrado movimentando milhões por mês com o domínio da “rota Solimões”, usada para escoar a cocaína produzida na Bolívia e no Peru por meio dos rios da região amazônica.
 
Embora seja aliada do CV, a FDN nunca aceitou ser subordinada a nenhuma outra organização. No inquérito que deu origem à La Muralla, os investigadores perceberam que o PCC estava “batizando” criminosos amazonenses de modo a aumentar a presença no Estado. Essa ação desagradou a FDN, que ordenou a morte de três traficantes ligados à facção paulista.
 
À época, CV e PCC eram aliados e mantinham negócios juntos, e a FDN estava fragilizada pela Operação La Muralla. Cerca de um ano após iniciar a perseguição ao PCC, e agora com o apoio do CV, a FDN pôs em prática o plano de acabar com a facção paulista no Amazonas.
 
O Sindicato do RN é uma facção potiguar que atua no tráfico de entorpecentes e em crimes ligados a essa prática criminosa, como assaltos e assassinatos. Com atuação no Rio Grande do Norte, nas terras potiguares o Sindicato também se opõe ao PCC na disputa por espaço na comercialização de entorpecentes.