Marcelo Odebrecht pediu cargo a Palocci no primeiro governo de Dilma

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Uma mensagem apreendida por investigadores da Operação Lava Jato mostra que o empreiteiro Marcelo Odebrecht pediu ao ex-ministro Antonio Palocci "espaços" para o então secretário executivo da Controladoria-Geral da União (CGU) Luiz Navarro no primeiro governo de Dilma Rousseff.
 
O e-mail foi encaminhado por Marcelo Odebrecht a diretores da empresa no dia 20 de dezembro de 2010, a 12 dias de Dilma tomar posse para seu mandato inicial como presidente.
 
Na mensagem, o ex-presidente da Odebrecht colou o conteúdo de um texto que enviaria a Palocci e no qual expressava seu interesse em ver Navarro no governo da petista.
 
"Chefe, (...) não sei se você conhece Luiz Navarro, secretário executivo da Controladoria-Geral da União. A pessoa dele comandou de forma efetiva a CGU, e penso que isso é reconhecido de dentro e de fora do órgão. Acho que vale a pena você recebê-lo para avaliar como ele poderia se ajustar em espaços do novo governo", diz a mensagem do empreiteiro incluída no e-mail aos diretores.
 
Dentre os destinatários do e-mail está o ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht Cláudio Melo Filho, um dos ex-executivos da empresa que fizeram delação premiada na Lava Jato. Em depoimentos, Melo Filho citou repasses para diversos políticos de vários partidos.
 
Ministro
 
Navarro foi mantido na secretaria executiva da CGU no governo Dilma. Em 2016, no segundo mandato da petista e já com o impeachment em curso, foi nomeado chefe do órgão que tinha status de ministério. Em maio do ano passado, na véspera de deixar o cargo, Dilma o nomeou conselheiro da Comissão de Ética da Presidência da República, posto em que ele ficará até 2019. O colegiado é responsável por instalar procedimentos para investigar a conduta de integrantes do Executivo. A comissão tem sete conselheiros, não remunerados.
 
O e-mail de Odebrecht com o pedido a Palocci ajudou a subsidiar o pedido de prisão do ex-ministro. Palocci foi detido em setembro, investigado por suas relações com a empreiteira. Ele é réu na Lava Jato por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Odebrecht está preso desde junho de 2015 e foi condenado no âmbito da operação.

A "guerreira" é cogitada para a Câmara Federal

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Dentro da nova legislatura da Câmara Municipal de Natal, uma figura ganha destaque somente pelo fato de estar ali: a ex-governadora Wilma de Faria (PT do B). Ela iniciou os trabalhos legislativos na mesma semana em que completou 72 anos de idade e depois de duas derrotas nas eleições para o Senado. Contudo, 'a guerreira'  enfrenta um novo desafio: aliar a saúde aos trabalhos de vereadora e aos planos futuros. Foi essa a razão que já a afastou da liderança estadual do Partido Trabalhista do Brasil (PT do B), menos de um ano após assumi-la.

A informação foi confirmada pelo diretório nacional da legenda que ainda busca um nome para substituí-la. "Não se trata de problema político, apenas uma decisão dela própria em virtude do tratamento de saúde. O partido respeita a decisão e acredita em sua história política e na representatividade que tem enquanto gestora e mulher. Por isso procura um nome que tão bem possa substitui-la", informou o PT do B, por meio de sua assessoria de imprensa.

Wilma entrou no partido em abril de 2016 com a promessa de que preferia um partido menor para ajudar a crescer e fazer novos nomes na política, como fez no Partido Socialista Brasileiro (PSB). Sua saída do grupo socialista que comandava no estado havia 22 anos, foi pressionada pelas condições impostas pelo diretório nacional de que a presidência da legenda não seria mais dela.
No PSB, internamente, Wilma desagradava outros políticos que reclamavam nos bastidores sobre falta de espaço para eles, alegando que ela tinha perfil centralizador. Estes correligionários apoiaram a decisão do diretório nacional de entregar o partido ao jovem deputado federal Rafael Motta, atitude que a ex-governadora chamou de oportunista em um momento que se encontrava em tratamento de saúde. Ela migrou para o PT do B e deixou seus aliados livres para escolherem outros partidos.

Segundo o diretório nacional da nova legenda de Wilma, os números nas eleições de 2016 foram os melhores das duas anteriores. Em 2008 foram cinco candidatos e 963 votos nominais. Em 2012 o partido teve 7 candidatos e 483 votos. Em 2016 conseguiu eleger Wilma lançando 17 candidatos e obtendo 8.449 votos.

O partido diz que está feliz com a presença de Wilma na legenda e que não há nenhum problema de cunho político na relação, tanto que até cogita seu nome para uma possível candidatura em 2018. "O que a gente pensa para 2018 é em fazer mobilização para eleger um deputado federal na região. Não temos um nome ainda, mas como não há problema político com Wilma, se houver interesse e dependendo das suas condições de saúde, poderá ser o nome dela", informou o diretório nacional.

Wilma de Faria foi procurada para falar sobre suas expectativas no partido, mas não se pronunciou. Contudo, no último dia 15, na abertura dos trabalhos legislativos na Câmara, falou abertamente sobre como pretende atuar no seu mandato e sobre sua saúde, sendo esta uma nova experiência em quase 40 anos de vida pública, desde que disputou pela primeira vez uma eleição.

No início de 2015, já vice-prefeita de Natal, Wilma ausentou-se do mundo político para tratar da saúde, fazer uma cirurgia no esôfago. Ao se aproximar do final daquele ano, foi necessária novo procedimento cirúrgico para desobstrução do sistema digestivo contra uma neoplasia  duodenal.

O tratamento continuou, mas somente em dezembro de 2015, pronunciou-se publicamente nas redes sociais agradecendo à equipe médica, amigos e familiares. No meio da campanha eleitoral de 2016, voltou ao hospital para novo procedimento nas vias biliares.

Atualmente continua com o tratamento, mas diz que não tem atrapalhado o trabalho que começou na semana passada na Câmara Municipal. “A gente continua o tratamento de saúde e ainda não conseguimos dizer que está tudo bem, mas está caminhando bem. Não interfere no meu trabalho, mas às vezes preciso fazer procedimentos e exames e me ausentarei um pouco porque a prioridade com a saúde é fundamental”, declara.

OPOSIÇÃO AO PREFEITO CARLOS EDUARDO 

Ao assumir o mandato para os próximos quatro anos, Wilma prometeu forte atuação em oposição ao prefeito Carlos Eduardo (PDT), e quer defender como bandeiras, a valorização da mulher e o investimento no social para combater a violência e o desemprego.

Wilma ocupou o mais alto cargo político no estado, o de governadora, por duas vezes, sendo a primeira mulher governadora do Rio Grande do Norte, assim como também foi a primeira prefeita de Natal, ocupando o cargo por três vezes. Da experiência no Executivo, diz que traz a satisfação de colaborar para o desenvolvimento da capital, agora no legislativo e, apesar da disputa por uma vaga na Câmara ter sido apontada por muitos observadores políticos como o fim de sua hegemonia, Wilma diz que não se incomoda de estar onde se encontra hoje.

“Não me incomoda (ser vereadora) depois de já ter sido governadora, muito pelo contrário! Trago experiência dos meus governos e quero aproveitar essa experiência para transformar em ações. O trabalho dos vereadores é importante para somar. A situação é grave na vida pública e a classe política tem que cumprir o que promete e não apenas fazer de conta”, declara.

No legislativo, ela está na oposição ao prefeito Carlos Eduardo depois de ter sido sua aliada por três anos, na função de vice-prefeita, fora os anos anteriores em que trabalhavam do mesmo lado, ela no governo e ele na prefeitura do Natal. Foi no ano passado que o rompimento se tornou oficial e Wilma decidiu se lançar vereadora. Alegou que não teve espaço na gestão para “ajudar Natal”.

Uma vez vereadora, Wilma de Faria diz que será vigilante. “A população está ansiosa para saber se os compromissos serão cumpridos. Temos obrigação de estar atentos a esta responsabilidade que o político tem de realizar o que se comprometeu com o povo, mas vamos estar atentos e vigilantes. Teremos discussões acirradas”, diz a vereadora.

O acirramento, explica, deve se dar nas discussões pela melhoria de serviços básicos, como a saúde. Wilma diz que o município precisa melhorar a saúde básica e se preocupar com a questão do emprego e renda. “Vou lançar projeto na área de empreendedorismo e na área de emprego e economia solidária da experiência do nosso governo quando a gente revolucionou à época junto com o Sebrae”, diz.

Essa é, segundo aponta, uma forma de combater a violência e a criminalidade. “A situação da violência é grave no Brasil e os governos não cuidaram da parte social. A gente quer que a parte social prevaleça porque é importante para enfrentar a violência e combater as drogas e tem que exigir do governo federal que dê um apoio também”. Outra bandeira que quer defender na Câmara é a da defesa às mulheres e da educação infantil.

Na Câmara, a ex-governadora é presidente da Comissão de Previdência e Assistência Social e integra as comissões de Saúde; de Educação; e a de Planejamento Urbano, Habitação, Meio Ambiente, Legislação Participativa e Assuntos Metropolitanos. Além disso, também está na Comissão Especial de Revisão da Lei Orgânica e ocupa a 2ª Vice-secretaria da Mesa Diretora. “A população está mais atenta e os órgãos de controle externo são muito atuantes e isso é bom porque faz com que a população cobre mais e o político tem que cumprir com o que promete”, diz  a parlamentar.

TRAJETÓRIA

A trajetória de Wilma não teve tantas mudanças em sua maior parte. Pertenceu ao mesmo grupo político por décadas e sempre colecionou mais vitórias do que derrotas, pelo menos até o início dos anos de 2010. Foi quando ficou sem mandato e por duas vezes não conseguiu se eleger para o Senado Federal (em 2010 e 2014). Voltou a um  cargo eletivo em 2012 como vice-prefeita de Natal e em 2016 como vereadora.

Wilma começou a vida pública de forma discreta, como primeira-dama. Assumiu a parte assistencial do governo em 1979 no MEIOS (Movimento de Integração e Orientação Social), que era financiado pelo governo, mas foi extinto em 2012 pela Justiça, após ser alvo de ações trabalhistas. Em 1983, Wilma assumiu a Secretaria Estadual de Trabalho e Bem-Estar Social do estado, no Governo de José Agripino Maia, que a lançou nas eleições diretas para a prefeitura do Natal em 1985, mas perderam para Garibaldi Filho.

Hoje senador, José Agripino elogia a trajetória de Wilma. “Uma mulher de muito espírito de luta, dedicação às causas populares do estado como poucas pessoas e que continua na vida pública pugnando para prestar o melhor serviço do seu esforço pessoal, dedicação e espírito público que tem sido uma permanência nos seus mais de 30 anos de vida pública”, elogiou.

Wilma ganhou força e em 1986 foi eleita foi eleita a primeira deputada federal na Assembleia Constituinte, com atuação nota 10, concedida pelo Departamento Intersindical de Assuntos Parlamentares (DIAP), devido à atuação nos direitos sociais e dos trabalhadores. Dois anos depois foi a primeira prefeita de Natal, agora apoiada por Garibaldi.

Continuou prefeita por mais dois mandatos e em 2002 chegou ao governo do estado sendo também a primeira mulher chefe do executivo estadual potiguar, inclusive, reeleita em 2006. Porém, foi ao disputar o Senado em 2010 que Wilma teve sua primeira grande derrota, fato que se agravou por não ter conseguido fazer seu sucessor para o governo do Estado.

Em 2012 até cogitou disputar a prefeitura do Natal, mas dizia que, por uma questão de desprendimento político e humildade, sairia na chapa como vice-prefeita de Carlos Eduardo que ainda era seu aliado.  Em 2014 mais uma vez tentou o Senado, mas não conseguiu a vaga e seu candidato ao governo também perdeu. Seu nome também passou a ser frequente em denúncias de esquemas de lavagem e desvio de dinheiro que teriam sido articulados pelo seu filho, Lauro Maia, que foi auxiliar nos seus govenrnos estaduais. Wilma chegou a ser denunciada, mas até o momento, nenhuma condenação pesa contra ela.

A partir de 2014 já se começava a perceber o afastamento com Carlos Eduardo. No início de 2016, nova derrota, dessa vez no campo partidário. Ela perdeu a liderança do Partido Socialista Brasileiro (PSB), que comandava no estado havia 22 anos. Internamente Wilma desagradava outros políticos que reclamavam nos bastidores que não havia espaço para eles devido ao perfil centralizador que ela tinha. Estes correligionários apoiaram a decisão do diretório nacional de entregar o partido ao jovem deputado federal Rafael Motta, atitude que Wilma chamou de oportunista. Ela migrou para o PT do B e deixou seus aliados livres para escolherem outros partidos.

Câmara resiste a contrapartidas de Estados em acordo

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O governo enfrentará obstáculos da oposição e até da base aliada para aprovar na Câmara o projeto que cria o novo programa de recuperação fiscal para Estados. A principal resistência, segundo líderes partidários ouvidos pelo Estado, será aprovar as contrapartidas exigidas dos Estados em troca da suspensão do pagamento das dívidas com a União.

Líderes aliados e opositores argumentam que o Congresso não pode aprovar contrapartidas iguais para os Estados. Para esses deputados, se o Ministério da Fazenda insistir nesse ponto, o projeto poderá ser desfigurado na Casa. Eles defendem a aprovação de regras gerais para os acordos e uma regulamentação posterior, caso a caso, das contrapartidas.

Segundo o projeto enviado à Câmara, para fechar o acordo de suspensão do pagamento de dívida com a União por três anos, prorrogáveis por mais três, Estados terão de cumprir exigências como aprovar uma lei autorizando a privatização de empresas dos setores financeiros, de energia e saneamento.

"Não tem como trabalhar os Estados de forma igual. Engessar isso e não abrir o diálogo vai ser muito complicado", afirmou Aureo Ribeiro (RJ), líder do Solidariedade, partido aliado. Para ele, o ideal seria aprovar apenas a parte da suspensão da dívida, "e depois regulamentar (as contrapartidas por Estado)". A Fazenda, contudo, não abre mão de aprovar as contrapartidas com o projeto

Segundo o líder do PP, Arthur Lira (AL), a resistência deve ser maior em contrapartidas que os deputados acreditam ser função das Assembleias, como a que exige o aumento da contribuição previdenciária dos servidores.

"Acho as contrapartidas corretas. Só tenho dúvida se precisa estar no texto da lei ou não", disse ao Estado o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Partidos da oposição são contra, principalmente, as privatizações. "O correto é o governo renegociar a dívida estabelecendo as contrapartidas de comum acordo", disse o líder do PT, Carlos Zarattini (SP).

Favoráveis

Na base aliada, porém, há quem defenda a medida. "A predisposição do PMDB é encaminhar favoravelmente ao projeto com contrapartidas", disse Baleia Rossi (SP), líder da sigla na Câmara. "O governo não pode, a cada dor de barriga que os Estados tiverem, ajudar. Não pode simplesmente dar dinheiro aos Estados, sem contrapartida. Senão, em dois anos vão estar de volta", afirmou a líder do PSB, Tereza Cristina (MS). Para o líder do PSDB, Ricardo Tripoli (SP), não tem como aprovar o projeto sem contrapartidas iguais para os Estados. Ele acredita que estabelecer regras diferentes pode levar à judicialização dos acordos.

Procurador-geral da República deve abrir investigação contra Eliseu Padilha

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O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deverá pedir a abertura de um inquérito para investigar o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, citado em delação do ex-diretor da Odebrecht Cláudio Melo Filho e no depoimento espontâneo do advogado José Yunes.

Amigo e ex-assessor especial do presidente Michel Temer, Yunes disse que atuou como "mula involuntária" de Padilha ao receber um "envelope" do operador financeiro Lúcio Funaro. As declarações fragilizaram a situação de Padilha no Palácio do Planalto e abriram uma nova crise no governo.

Em dezembro, a Coluna do Estadão informou que Funaro entregou a Yunes R$ 1 milhão em espécie, quantia proveniente do caixa 2 da Odebrecht, a mando de Padilha. Após vir à tona a delação de Melo Filho, Yunes deixou o governo.

As declarações do ex-assessor aumentaram as articulações no governo para que Padilha deixe o cargo após a licença que ele tirou para tratar sua saúde. Ele passa por exames finais pré-operatórios em Porto Alegre e deverá ser submetido a uma cirurgia até segunda-feira. Para tanto, tirou uma espécie de "licença informal", sem oficializar qualquer afastamento temporário. O ministro avisou que pretende retornar ao trabalho em Brasília em 6 de março.

Embora a investigação já estivesse prevista no grupo de trabalho de Janot desde que o ministro foi citado na delação de Melo Filho, a avaliação na PGR é de que o depoimento de Yunes reforçou a necessidade de que Padilha seja alvo de inquérito.

Nos bastidores, o procurador-geral costuma revelar que nenhuma citação feita nas delações que indique suposto cometimento de crime deve ficar sem abertura de investigação. A solicitação para investigar Padilha deverá estar no pacote que Janot pretende encaminhar ao Supremo Tribunal Federal após o carnaval com base nas delações de 77 executivos e ex-executivos da Odebrecht.

Yunes esteve na semana passada no Ministério Público Federal e afirmou que recebeu uma encomenda de Funaro em setembro de 2014, pouco antes da reeleição da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer. Funaro é apontado por investigadores da Operação Lava Jato como operador do ex-presidente da Câmara e deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), atualmente preso em Curitiba.

Núcleo duro
Padilha é um dos principais auxiliares de Temer, responsável pela articulação da reforma da Previdência. Sua saída seria mais uma baixa no núcleo duro do governo, após as demissões de Romero Jucá (Planejamento) e Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo)

Temer não pretende, por ora, tirá-lo. Segundo fontes, o presidente leva em conta o fato de que um eventual afastamento do auxiliar faria com que ele perdesse o foro privilegiado e ficasse sob a jurisprudência do juiz Sérgio Moro.

O "fogo amigo" no Planalto contra Padilha usa como argumento a saúde frágil do titular da Casa Civil. Um beneficiário direto de uma possível saída de Padilha seria o ministro Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência), outro integrante do núcleo de conselheiros de Temer, que poderia ampliar seu poder de atuação no governo.

Ao longo da semana, Temer teve de administrar uma divisão na bancada do PMDB na Câmara em razão da nomeação do deputado federal Osmar Serraglio (PMDB-PR) para o Ministério da Justiça.

Acho que fiquei neutro, votos não vão cair em mim, diz Carlos Manato

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O deputado federal Carlos Manato (SD-ES) negou ao Estado ter incentivado o movimento que parou a Polícia Militar do Espírito Santo, disse que ficou neutro tanto antes quanto durante os protestos. Afirmou ainda que não lucrou politicamente com a crise na segurança. Defensor do armamento da população, ele apresentou projeto de anistia dos policiais e mostrou uma mensagem por WhatsApp em que Jair Bolsonaro confirma a aliança nas próximas eleições. Manato é pré-candidato ao governo do Espírito Santo, hoje comandado pelo peemedebista Paulo Hartung.

Como avalia o fato de algumas pessoas que participaram do movimento, como a Izabella Costa e o Capitão Assumção, serem próximas ao senhor?

O Capitão Assumção é policial militar aposentado. Ele tem uma ligação muito grande com a polícia e todos os movimentos, porque é candidato a deputado federal de novo. O (Walter Lopes) Matias (ex-soldado da PM) me ajuda nas redes sociais, nas minhas coisas O que eu sempre converso com eles: ‘Se vocês cometerem algum crime, assumam e respondam por ele. É problema de vocês. Cada um vai pagar o preço da sua irresponsabilidade.’

Mas o fato de ter uma pessoa no protesto em frente a um quartel, como a Izabella, que trabalha em seu gabinete, não pode ser interpretado como um envolvimento do senhor?

Zero envolvimento. Nunca pedi para eles deixarem de fazer. A Izabella é esposa do Matias. Ela trabalha para mim em Vitória, no Espírito Santo. Cuida de redes sociais.

Na sua opinião, essa rede se aproveitou politicamente da crise para levantar o nome de Bolsonaro e as bandeiras dele?

Ele (Bolsonaro) não foi lá. Qualquer coisa que ele faz tem no mínimo 1,5 milhão de interações. E ele tem dois celulares, que não param, tamanha a quantidade de (mensagens no) WhatsApp.

Como o senhor viu a exploração política da crise no ES?

Eu ganhei ou perdi? Eu acho que eu fiquei neutro. O Capitão Assumção é que levou toda a glória, os votos vão cair nele. Não em mim. Tive um desgaste natural da sociedade civil organizada que não concordou com a posição do projeto (de anistia). De cem (pessoas), entre e-mail, WhatsApps, Facebook, 80 concordaram com minha atitude e 20, não.

Rede de Bolsonaro na ‘teia’ do motim

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Um grupo político ligado ao deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) esteve na linha de frente da comunicação e da logística do motim que parou a Polícia Militar do Espírito Santo no início deste mês, segundo levantamento do Estado em conjunto com uma equipe de especialistas em redes sociais. Entre os nomes que constam desta rede de apoio estão o ex-deputado federal Capitão Assumção e o deputado federal Carlos Manato (SD-ES), aliados de Bolsonaro no Estado.

A Polícia Federal investiga a origem do movimento, que durou do dia 4 até 14 de fevereiro, período em que ocorreram 181 homicídios na Grande Vitória e em cidades do interior. Um relatório parcial da PF, de 17 de fevereiro, ao qual a reportagem teve acesso, cita os nomes de Assumção, de Manato e de assessores. O documento alerta para a possibilidade de falta de policiais nas ruas de Vitória durante o carnaval. A paralisação dos militares é considerada ilegal e mais de mil agentes da corporação estão sendo processados.

O Estado identificou uma intensa troca de mensagens entre pessoas ligadas ao grupo, influente na PM capixaba, corporação que agrega 10 mil homens. O levantamento coletou informações produzidas por internautas e rastreou as interações de pessoas e entidades. Para isso, teve a ajuda de uma equipe formada por mestres e doutores nas áreas de Sociologia e Comunicação Digital

Recorde

Publicações do próprio Bolsonaro atingiram recordes de visualizações nos dez dias de paralisação. Apenas um vídeo divulgado pelo deputado no dia 6 de fevereiro, terceiro dia do motim, foi visualizado por 2 milhões de pessoas. Nele, Bolsonaro critica o governo do Estado, defende a polícia, alerta para a possibilidade de o movimento se espalhar para outros Estados e faz propaganda do nome do Capitão Assumção, que, segundo aliados, almeja voltar à Câmara em 2018.

Atuação. A movimentação na internet antecede a presença massiva de familiares dos policiais na frente dos batalhões da Polícia Militar, um cenário que ganhou corpo a partir da manhã do sábado, dia 4. No dia anterior, sexta-feira, o ex-deputado Capitão Assumção, braço direito de Bolsonaro no debate de segurança pública na Câmara entre 2009 e 2011, divulgou no Facebook uma lista de reivindicações da categoria e as primeiras imagens de mulheres que faziam protesto na frente de um batalhão no município da Serra.

"Já que os militares não podem se manifestar, os familiares estão fazendo por eles", escreveu. O post teve quase 300 mil compartilhamentos. O ex-deputado usa foto de Bolsonaro na capa da conta no Facebook. Procurado desde a terça-feira, Assumção não foi localizado.

Na noite do mesmo dia, véspera do início do motim, o empresário Walter Matias Lopes, militar desligado da polícia, alertou seus seguidores: "Amanhã a Polícia Militar vai parar. Pior Salário do Brasil". Em seguida, convocou: "Você, admirador da Polícia Militar, está convidado para participar do movimento amanhã". Matias é companheiro de Izabella Renata Andrade Costa, funcionária comissionada do gabinete de Carlos Manato, que é pré-candidato ao governo do Espírito Santo com o argumento de que, assim, dará palanque a Bolsonaro.

Além de também incentivar a manifestação, Izabella engrossou as fileiras em frente aos quartéis e ajudou a distribuir alimentos às mulheres, segundo publicou em sua conta no Facebook. Na manhã de sábado, divulgou vídeo de "transmissão ao vivo" do protesto.

Marido de Izabella, Matias Lopes também tem pretensões eleitorais em 2018. Quer tentar uma cadeira na Assembleia Legislativa. Ao Estado, disse que foi apenas um "espectador". "Não sou líder nem cabeça de movimento. Nem eu nem a Izabella", afirmou, referindo-se à sua companheira. "Estou servindo apenas de mediador de um conflito." Logo após a conversa, Matias e Izabella limparam as mensagens publicadas no Facebook.

Questionado sobre as publicações disseminadas pelas redes sociais, o governo do Espírito Santo informou que tem procurado identificar a dimensão do uso político antes, durante e depois do motim e que fez alerta às forças federais.

Ao vivo

A reportagem procurou Bolsonaro desde terça-feira (21) para comentar as questões relacionadas à crise no Espírito Santo e enviou perguntas ao deputado. O deputado, que informou que estava no Rio, não respondeu aos questionamentos e disse que só se manifestaria sobre o assunto ao vivo e desde que a conversa fosse gravada em vídeo.