Cartas de Miami - I

Cartas de Miami - I

Compartilhe esse conteúdo

Não diria, Senhor Redator, que Miami é uma cidade sem caráter, no sentido macunaímico da expressão. Escrevo com a tinta da primeira impressão, mas com o cuidado de não chegar a certezas apressadas. A estes olhos viajores de muitos lugares, parece chão sem pátria cultural, intencionalmente concebido para continuar sendo o que sempre foi desde o século dezesseis, quando este belo mar do Caribe era feito das águas de ninguém, de todos os piratas e corsários em um mundo ainda sem dono. 
 
E se são visíveis no desenho da sua forte geografia urbana os traços modernos da civilização americana, nada tem de gosto excessivamente ianque. Miami - se devo dizer tão simplesmente - parece uma capital cosmopolita das civilizações espanholas e caribenhas, porto aberto a todos que buscam guarida. Um jeito portunhol ou espanholado de falar, e onde convivem, nas mesmas mesas, os pratos de todos os lugares do mundo - das bananas fritas de Cuba às melancias miniaturizadas dos japoneses. 
 
Ando aqui desde domingo, a convite de Haroldo e José Bezerra Júnior, sertanejos do Seridó, nascidos numa civilização arcaica, assentada no casco da Fazenda Cacimba do Meio.
 
Talvez por isso, por suas raízes fincadas num chão de pedra, e vividos na vida das gentes e dos bichos com dois séculos de tradição, não se assombram com nada, treinados que são numa luta em travessia, entre a secura da estiagem e a fartura do inverno. Quem nasce assim, vive em qualquer lugar. Sem medo e sem excesso.
 
 
A primeira visita, depois de uma vista d’olhos pelas ruas e avenidas num domingo de trânsito calmo, entre jardins sossegados, foi ir a um supermercado da cidade. Júnior tinha razão. Ali está um retrato perfeito da vida em Miami, sem auxiliares domésticos, tudo pronto para comer ou usar. Os alimentos contam a história do homem, da banana nanica da Guatemala aos caranguejos do Alasca; das ervas perfumadas do Oriente ao cheiro do curry apimentando o feijão preto tão nosso conhecido. 
 
Depois, e para mostrar a influência, almoçamos num restaurante que carrega, até no seu próprio nome, um pouco daquela Havana subjugada. Da alegria humilhada nos tempos medonhos do ditador Fulgêncio Batista. De antes de Sierra Maestra, quando Fidel Castro, o comandante, e Che Guevara, o guerrilheiro cheio de sonhos que morreu de olhos abertos, a libertaram. O gosto da perna de carneiro é de cozinha forte e magistral, e o uísque servido estranhamente em copo de pé, e canudo, a la daiquiri. 
 
O frio é manso. Incomoda um pouco a Haroldo Bezerra, magro, como há de ser um sertanejo sem aquela camada de gordura que protege. Trouxe o endereço de duas livrarias, uma delas num jardim simpático. Depois digo se há a presença de livro brasileiro. E como esta democracia se prepara para receber Mein Kampf, o livro de Adolf Hitler, publicado originalmente em 1925, assombrando o mundo. E volta depois de ter seus direitos de publicação prisioneiros da Baviera durante setenta anos.