[Crônica] A ilha engolida pelo mar e vítima de corsários

[Crônica] A ilha engolida pelo mar e vítima de corsários

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Quando nasci, Senhor Redator, ganhei de presente uma lenda. A história de uma ilha que um dia foi engolida pelo mar.Menino, ainda ouvi a minha mãe contar a história muito antiga e muito triste da Ilha de Manoel Gonçalves. Lugar de pescadores e salineiros, com porto e capela. De navios de marinheiros e corsários ingleses, ambiciosos e malvados, assaltando sua gente mansa e desarmada, como se riqueza tivesse. Ilha antiga e misteriosa, feita de degredo e abandono, sobrevivência e solidão. 
 
Seria uma ilha comum, propriedade com data de terra colonial, se lá não vivesse, até hoje, o mistério da história de um frade, vítima de homens sem Deus que teria partido da ilha e de Macau, mas deixando como herança uma maldição. Lavou os pés, bateu uma na outra suas sandálias franciscanas para nada levar da terra, nem o pó, e rogou uma praga medonha de versos terríveis que dizem assim: ‘Canoa, sal e peixe seco / É de Macau a Trindade! / Ciência, moral e virtude / São suas odiosidades!’.
 
Ainda nos anos setenta, e para que não se perdesse, contei a lenda a Manoel Onofre Jr. que citou nas histórias de um dos seus livros, tal como ouvi da minha mãe, hoje com 88 anos e lúcida. Foi talvez o primeiro registro em livro. Anos depois, lendo ‘Macauísmos - lugares e falares Macauenses’, de Benito Barros, encontrei a mesma quadrinha, mas de fonte antiga, transcrita do jornal ‘A Voz de Macau’, 20 de maio de 1951, número um, menos de um mês depois da minha chegada a este mundo.
 
A partir daí, o silêncio também cobriu a Ilha, tragada pelo mar depois de 1843. Como se sabe? Fui reencontrá-la nos artigos do professor João Felipe da Trindade estudioso dos seus mistérios e por isso leu em velhos livros dos arquivos de Pernambuco e anotou: é de 1843 o último registro de batismo na sua capela que era humilde, tinha três paramentos - roxo, branco e encarnado - cálice e patena para as hóstias nas celebrações da missa, castiçais de prata e ramalhetes que adornavam seu pequeno altar.
 
Basta dizer que a partir de 1845 não há mais notícias da Ilha de Manoel Gonçalves que fora comprada por volta de 1797, no meio de uma vasta quantidade de terras no sertão de Assu. Está no inventário de Domingos Affonso Ferreira e Dona Maria Theodora Moreira de Carvalho. E é de José Álvares Lessa, seu procurador, a descrição da ilha: ‘Trezentas braças de largura de Norte a Sul; um quarto de légua de comprimento de Leste’. Com ‘água doce dentro, pesqueiras de currais de peixes na Costa do Mar, vinte pés de coqueiro, casa de telha e taipa, cômodo da assistência do administrador, armazém de peixe seco, senzala com dos pretos escravos e oratório de se pedir missa’. 
 
Minha ilha tinha escravos, Senhor Redator, dezoito no total, mas sendo que quinze deles eram pretos de Angola, um preto crioulo e uma preta também de Angola chamada Maria, 30 anos, com filho de três. Suas idades, e está num relato quase duas vezes secular, variavam entre 14 e 70 anos, com o valor médio de trinta mil réis, sendo que Maria, preta nova e parideira, valia até cento e cinquenta mil réis. Assim viveu a Ilha de Manoel Gonçalves, sem luxo e sem orgulho, até que o mar um dia engoliu.
 
O mais terrível de sua pobre história foi o saque que sofreu em dezembro de 1818. Está na carta do Comandante do Degredo da Ilha de Manoel Gonçalves, Alexandre José Pereira, dando parte do que fizeram os corsários de uma escuna inglesa. Com o pretexto de pedir água e mantimento saquearam as embarcações ancoradas, duas de nomes bonitos e únicos: Almas da Paraíba e Flor do Mar. De tudo, restou o velho Cruzeiro da capela que hoje repousa na entrada da matriz de Nossa Senhora da Conceição. Por tudo isso, posso dizer que tive uma ilha de verdade. Aquela que um dia, e como bem se viu, o mar devorou...