Fez bem o Papa ao recusar convite de Temer para vir ao Brasil

Fez bem o Papa ao recusar convite de Temer para vir ao Brasil

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Foi bom que o Papa Francisco I não tenha aceitado o convite do presidente Michel Temer para vir ao Brasil nos trezentos anos da aparição de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira dos brasileiros. E que na diplomacia vaticana, como é da tradição de São Pedro, a esta negativa Sua Santidade tenha somado o pedido para o governo não abandonar os pobres. Ficou evidente toda essa retórica que joga a crise nos ombros dos fracos para fabricar o terror de justificar a injustiça.

Jesuíta, com a tradição de não ter fascínio pelo fausto, Temer hoje ocupa quatro palácios - Planalto, Alvorada, Jaburu e Granja do Torto - até o Papa já notou que as duas reformas que mais mexem com a vida das pessoas comuns, como previdência e relações de trabalho, não passaram no crivo das discussões. Reforçam o direito paritário das castas, aliadas da tecnocracia estatal, como se o rombo alegado tivesse nascido do pagamento das aposentadorias pelo sistema geral do INPS.

Ontem mesmo esta coluna mostrou que as aposentadorias da esfera pública nos três níveis - municipal, estadual e federal - representam hoje R$ 1,3 trilhão de reais e aquelas pagas pelo setor privado, via INSS, apenas R$ 450 bilhões, praticamente um terço, segundo levantamento feito ao longo dos últimos quinze anos, de 2001 a 2015. Enquanto a reforma trabalhista repete a fábula do leão entre cordeiros, entregando os fracos às garras dos fortes ferindo o princípio da justiça social.

O presidente Michel Temer é um professor de Direito Constitucional para quem a lei não tem como função promover o primado do social. Ele sabe que a crise é grande, mas sabe também que mais perigoso do que enfrentar o povo nas ruas seria deixar de satisfazer os compromissos que assumiu com a poderosa Avenida Paulista, financiadora de sua chegada fácil ao poder. Como diria Walter Benjamin, para usar sua expressão perfeita, Temer lidera o cortejo triunfal dos vencedores.

Não é feita de coragem e transparência a retórica do Governo Michel Temer. Se fosse seria justo reconhecer o destemor cívico até como um atributo essencial dos estadistas e dos líderes. Sua gratidão perversa é feita de sem-cerimônia. O próprio Fernando Henrique Cardoso revela nos seus diários, escritos bem antes da eleição de Lula e da queda de Dilma, que o então deputado Michel Temer foi contra a idade mínima de 65 anos quando FHC tentou propor a reforma da previdência.

A retórica da crise é o trapo com o qual o discurso oficial tenta esconder o seu jogo injusto. As reformas não são para todos. Se fossem, seriam justas, mesmo duras. Quem toca no princípio da paridade das aposentadorias de magistrados e procuradores de todas as esferas, de militares, da alta tecnocracia que representa uma despesa cinco vezes maior do que as aposentadorias do INSS? A ausência do Papa é a forma de não coonestar a injustiça. A Santa Sé sabe falar por parábolas...