[Opinião] Antes servíamos ao Rei, hoje ao reinado da danação

[Opinião] Antes servíamos ao Rei, hoje ao reinado da danação

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Andam estranhos os tempos e feios os dias, Senhor Redator. Tanto que numa tarde dessas recorri à velha ‘Suma Católica contra os Sem-Deus’.
 
No Brasil, a edição é da José Olympio, Rio, 1939, sob a auspiciosa direção de Ivan Kologrivof e prefácio do padre Lacroix.
 
E todo esse fervor é porque ele abre seu prefácio convencido de que o homem há de ter sido bom nos primórdios, já que não é admissível ter sido criado à imagem de Deus só para se tornar, com os séculos, tão perverso.
 
De uma lógica antiga e muito rígida, o padre Lacroix não se faz de rogado, nem roga aos outros o perdão que não julga merecido. Se o homem, diz ele, foi criado para ser bom e tornou-se mau, tudo aconteceu depois que Deus pôs em suas mãos a liberdade e deu-lhe o direito racional de aceitar ou não os graves malefícios do mundo.
 
Anos depois, e certamente nem foram séculos, eis que o homem é outro. E como outro, entre virtudes e vícios, se distanciou daquela bondade natural. 
 
Aliás, não custa lembrar que não apenas nós, os cristãos, acreditamos naquela bondade pura e natural que encantou Jean-Jacques Rousseau.
 
Se os nossos índios, vistos por Montaigne, em Ruão, não inspiraram a Revolução Francesa com o estandarte em defesa da fraternidade, como defende Afonso Arinos de Melo Franco, quem teria sido,então, se há séculos viviam em paz, sem disputas e sem ambições, naturalmente bons, sem a inveja que tanta desgraça causaria ao homem moderno?
 
Pode ter sido um engano imaginar que os velhos viajantes tinham razão quando exibiam em seus relatos nossos índios como seres míticos, nascidos e vividos no Éden.
 
Mas eles não deviam ter mesmo essa maldade. Hoje, não. O homem moderno tem o vício de competir consigo mesmo. Sua ambição é desmedida, quer muito mais do que precisa para ser rico ou poderoso. E na ambição vive a transgredir todas as fronteiras. Um vitorioso que nem sempre sabe o que fazer com a sua vitória. 
 
A opulência nos viciou. Se antes servimos ao rei de Portugal, e a ele devotamos todo nosso ouro e nossas pedras preciosas, sangrando nossa riqueza e nos esvaindo em sangue, suor e lágrimas, ainda hoje servimos a outros reinados. Entre eles, o reinado da danação.
 
Custa acreditar que fomos um Éden e que neste mundo daqui, um dia, existiu um paraíso perdido. E, no entanto, insistimos com os mesmos mitos de quando aqui chegaram nossos achadores e seus degredados filhos de Eva. 
 
Não foi ruim que tenhamos sido, de alguma forma, ingenuamente bons. Ou que carreguemos na carne o banzo dos negros e a saudade melancólica dos brancos.
 
Ruim foi quando os nossos ditos civilizadores enfiaram nos nossos bestuntos que éramos pobres e assim seríamos pela vontade de Deus, mas ricos do seu amor.
 
Ora, se o próprio padre Lacroix, no seu prefácio, não se nega a pedir a benevolência dos leitores, não será a nós que faltará o velho amor próprio que não tivemos até hoje.