[Opinião] Até os anos 60, o líder político era maior do que seu slogan

[Opinião] Até os anos 60, o líder político era maior do que seu slogan

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Até os anos sessenta, Senhor Redator, quando a política e os políticos já conheciam os efeitos da comunicação na conquista do voto, o Brasil ainda conviveu com sua última grande geração de homens públicos e o talento era o centro de tudo.
 
O líder era maior do que seu slogan, sua figura mais marcante do que sua foto retocada que lhe tira até as marcas de expressão e lhe empresta um sorriso de matéria plástica; e seu espírito público mais forte do que as frases de efeito que ensinam repetir. 
 
O político não desprezava o bom assessoramento, mas era parte integrante de um jogo feito de idéias e não de frases pré-moldadas. A vocação era natural, nascia do espírito público e quase sempre transcendia a própria formação intelectual.
 
Eram antenas que captavam com sensibilidade os anseios da sociedade que representavam. Serviam em nome da construção de uma vida melhor para todos e se a vaidade existia e ardia era pela capacidade de realizar grandes sonhos coletivos como a utopia. 
 
O marketing político, em si, não faz alguém ficar melhor ou pior do que é. Mas, falsifica com rara perfeição. Põe um discurso democrático na boca de um conservador e até a liberdade nos lábios de um autoritário.
 
Pior, muito pior: como na frase célebre de Eça de Queiroz, mas numa inversão para o mal, o marketing esconde a nudez forte da verdade com o manto diáfano do artificialismo. Não da fantasia no sentido nobre da magia, mas do fantasiar-se para enganar os tolos de toda espécie. 
 
A razão é simples, Senhor Redator: é que no marketing político quase sempre a inteligência é do marqueteiro e não do produto que ele enxerga como um cliente. Dai as distorções, sobretudo o espanto quando o eleitor descobre que votou numa personagem e não no candidato de verdade que lá estava do outro lado da maquiagem. Quando não lhe causa quase um pesadelo a triste descoberta de que estava escondido na pele de cordeiro a hiena que mostrava os dentes, mas escondia os seus caninos.
 
Algumas vezes, Senhor Redator, os efeitos são tão desastradamente prosaicos que a agilidade do cliente desaparece se o marqueteiro entra de férias.
 
É como se levasse na bagagem a inteligência e deixasse no gabinete um órfão das falsas qualidades. Dai a bruma que envolve o limite do ter e do não ter vocação. Alguns são filhos, e é o que basta. Assim, vivem nos plenários e palácios como se representassem a sociedade. Alguns autômatos como papagaios com sua língua seca de tanto repetir. 
 
O marketing político na sua retórica desenhada pela força gestual nunca foi maior que a figura luminosa de um Getúlio Vargas, nem precisou soprar a chama de Carlos Lacerda.
 
E aqui, naqueles flamejantes anos 60, Dinarte Mariz e Aluizio Alves, mesmo entre gestos, cores e canções, foram maiores e mais marcantes que todos os símbolos criados em suas campanhas. Porque eram líderes. Plantavam em cada um o ódio e o amor, sem conceder a ninguém o silêncio frio de desconhecê-los.