[Opinião] Crise tira dos governadores até poder de barganha

[Opinião] Crise tira dos governadores até poder de barganha

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A não ser a calamidade pública e o clamor popular, nada mais resta aos governadores, como poder de barganha, para extrair do governo federal alguma ajuda substancial para os estados, muito mais os nordestinos, ilhados nas suas misérias.
 
O presidente Michel Temer tem demonstrado grande habilidade de articulador a construir maiorias folgadas na Câmara e Senado. Com isto, tornou fácil a aprovação das mudanças polêmicas sem contrair maiores compromissos com lideranças regionais. 
 
Se de um lado o modelo proporcionou eficiência e velocidade, de outro recalcou as bancadas e os governadores de uma só vez. Acabou pelo menos por enquanto o prestígio dos parlamentares que lutavam por seus estados e aos governadores restou um papel secundário, não mais aquele de antes, quando eram líderes e garantiam as maiorias.
 
Hoje, enfrentam crises incontornáveis até para liberar empréstimos aprovados nos seus estados garantidos por capacidade legal de endividamento. 
 
A crise é grande e desta vez maior do que a capacidade do tesouro, mas também é certo que não se sobrepõe à classe política na arte de fazer conviver uma inegável capacidade de transigência sem os traços da vassalagem. Se o modelo Michel Temer estivesse acima da classe política não teria hoje, seis meses depois da posse, uma pesquisa com números tão desalentadores. Fazer mudanças é um risco que precisa ser bem calculado para não parecer apenas o aprofundamento da desigualdade. 
 
Na reforma da previdência, por exemplo, a conta foi toda para os mais fracos. Qual a culpa do trabalhador assalariado e até do trabalhador médio, de quem foram feitos os descontos mensais, da má gestão dos governos há anos e anos? Dos altos salários nascidos de previdências estaduais ou institucionais de um Poder Judiciário que agora, nesses tempos de duras transparências, se revelam com privilégios e salários como aqueles - em média R$ 80 mil reais - mostrados pela revista Veja? 
 
Quais as medidas criando tributo para as grandes heranças e grandes fortunas,e para conter as desonerações fiscais que levaram o país a deixar de arrecadar R$ 600 bilhões, três vezes mais do que os decantados R$ 200 bilhões da previdência? O que levou o Palácio do Planalto a não lançar um conjunto de medidas equânimes que cobrasse o sacrifício de todos os estamentos da sociedade? Que não beneficiasse um modelo que se sabe escancaradamente incentivador da economia rentista?
 
Soprado pelos setores mais conservadores para conquistar o poder, mesmo presidindo um partido que era um cúmplice do Lava Jato e não aliado, e a julgar pelas denúncias e suspeições, o Governo Temer parece cercado de uma grande duvida coletiva. Há uma força gravitacional que leva o governo para o centro da desconfiança popular. Força que pode ser vencida, mas só depois que a sociedade conhecer as delações de Eduardo Cunha e dos 76 executivos da Odebrecht. Arre égua!