[Opinião] Liberais brasileiros nunca entenderão os democratas

[Opinião] Liberais brasileiros nunca entenderão os democratas

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Os liberais brasileiros, que são muitos, nunca vão entender os democratas, que são poucos, nem aceitá-los como referência porque seria capitular. 
 
E sua explicação é simples como a frase do sociólogo Domênico de Masi na entrevista a Mônica Bergamo, na Folha: "Não existe um único sonho. Cada classe tem o seu". E exemplificou: numa favela, o sonho pode ser comer todos os dias e ter acesso à instrução, o que não precisa ser sonhado pelas elites porque sonham sonhos maiores.
 
Talvez esteja ai a intolerância que impede a compreensão. Imagine um país, como lembra De Masi, que até 2014 via Lula como um líder e Dilma a sua sucessora, e meses depois este líder é visto como um delinquente. 
 
A ligeireza não justifica os erros de Lula nem isenta a ex-presidente dos seus pecados. Mas impede que se possa compreender que um país de cinco séculos não tenha capacidade, até hoje, de construir um modelo político compatível com as suas graves desigualdades.
 
Ora, como compreender que um governo de tintura socialista capaz de promover a maior distribuição de renda com o Bolsa Família mergulhe no erro dos governos conservadores que um dia combateu? Implodido nos seus alicerces, o Partido dos Trabalhadores cometeu não só o absurdo de não combater a corrupção, como foi seu maior protagonista numa extensão acima de todas as previsões. Culpa única do PT? Não. Quase todos os partidos têm hoje seus implicados no Lava Jato. 
 
O problema, pois, não é a corrupção em si, mas o fato de transformar em réus o PT e o seu principal aliado, o PMDB. O presidente da Câmara Federal dias depois de presidir o impeachment de Dilma Rousseff foi levado preso sob o rigor de graves acusações. E o presidente do Senado é réu em três de doze investigações. 
 
Estão presos alguns dos maiores empresários e ex-governadores,todos envolvidos em histórias fantásticas que falam de joias milionárias, de iates e de helicópteros. 
 
Não se discute o papel da Justiça. Como advertiu Domenico de Mais, aos juízes cabe fazer o que a sociedade exige que é apuração dos fatos e a punição dos culpados. 
 
O que se discute agora é a voz do povo. Com Lula fora da vida política o país de tantos e tantos milhões de pobres volta a não ter voz. O erro do PT, além dos bilhões de reais desse espetáculo sem fim, foi deixar o povo sem a única voz que conseguiu ter. Aquela que abriu espaço no fechado palco do teatro político do poder.
 
Pior: não será fácil a reconstrução do espaço como não foi ao longo de quinhentos anos de lutas. Os dois governos de Lula, queiram ou não os radicais, foram exemplos de convivência com todos os estamentos da sociedade, notadamente as elites econômicas, antes refratárias e intolerantes. 
 
E sob a regência do mesmo Henrique Meireles a quem hoje cabe enfrentar a crise e apontar a saída. Quanto tempo vai durar sem líder essa nova orfandade dos pobres? 
 
Ninguém sabe ainda como será.