[Opinião] Michel Temer parece esquecer circunstâncias de sua posse

[Opinião] Michel Temer parece esquecer circunstâncias de sua posse

Compartilhe esse conteúdo

Até os governadores já sentiram que precisam enfrentar com certo destemor as posições contra o primado econômico que o Palácio do Planalto quer implantar. 
 
Ninguém nega a crise nem a necessidade urgente de enfrentá-la com medidas duras, mas não é justo sem gestos de apoio aos governos estaduais. 
 
Daí a necessidade de um enfrentamento, se possível na área jurídica, contanto que sejam dadas as condições de governabilidade sem o discurso que penaliza uns e salva outros. Tem sido clara e até acintosa, de tão repetitiva, a retórica do governo federal na usinagem de um discurso fortemente direcionado contra o funcionalismo. Com estilo difuso, formulado para esconder as verdadeiras causas - a corrupção no Executivo e Legislativo e as castas remuneradas com vários privilégios e vantagens com base em isenção fiscal - criando um clima de terror para tornar mais fácil as medidas restritivas que acabarão por vir, mas, certamente, só contra os fracos. 
 
Uma coisa é a crise da previdência nascida da má gestão que não foi capaz de atualizar os cálculos atuariais, agravada pelos Legislativos que autorizam o saque dos fundos previdenciários. Outra, as despesas com pessoal que se elevam a patamares que só são ilegais porque um limite prudencial fixou em pouco mais de 50% da receita. Outra, são os orçamentos autônomos nascidos dos duodécimos constitucionais bem acima, muito acima - é tanto que sobra - dessas instituições. 
 
Quando um poder, mesmo dentro da legalidade e da legitimidade, poupa R$ 570 milhões de reais num dos estados mais pobres da federação e não atende bem aos deveres de ofício, há algo de errado. 
 
E se este poder quer doar uma parte e é vetado por um Conselho superior, é mais estranho ainda. A primeira função do Estado é social. Imaginar que a sociedade está abaixo é uma cerebração típica da cultura do privilégio, aliás comum aos poderes, instituições e seus agregados.
 
Político além da conta, o presidente Michel Temer parece um bom articulador dos partidos que apoiam seu governo, mas parece ter esquecido as circunstâncias que lhe cercam desde que foi empossado: seu governo deveria ser de coalizão, pactuando com a classe política e sobretudo com a Nação, todas as medidas. 
 
Para isto precisava ser exemplar, situar-se acima do noticiário policial das suspeições a colecionar quedas de ministros nascidas nas ruas e por denúncias as mais graves. 
 
Alguém precisa lembrar ao presidente que seu governo não pode beneficiar aqui ou ali, como se não tivesse grandes desafios. 
 
Nada mais difícil a um governante, num estado de crise absoluta, do que manter ou propor privilégios numa Nação inquieta, atenta a seus gestos, palavras e decisões. 
 
Os privilégios desqualificam a inteireza e a justeza da palavra oficial e ferem o tecido da boa fé pública, agredindo a sua grande alma coletiva. Governar em paz é governar para todos.