[Opinião] Parlamentares são prisioneiros de crimes e culpas

[Opinião] Parlamentares são prisioneiros de crimes e culpas

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Foi o filósofo Vladimir Safatle quem mais corajosamente definiu o que houve na invasão do plenário da Câmara Federal ao chamar de a quarta-feira negra. 
 
Quem sabe, só comparável, mutatis mutandis, à intolerância da monarquia francesa na Noite de São Bartolomeu, agosto de 1572, em Paris. 
 
Lá, a ira contra o protestantismo e a liberdade de religião; aqui, contra o poder que representa e resguarda a pluralidade das idéias e opiniões e as contradições da sociedade livre e democrática.
 
A condenação seria sumária e irrecorrível se as circunstâncias banhadas pelas águas de outro rio não fossem tão apodrecidas quando estas que levaram um grupo de cidadãos à invasão de um espaço que deveria ser respeitável. Mesmo sendo, e por isso mesmo, a casa do povo. 
 
Pior e até mais pernicioso do que a hipertrofia que no Brasil faz o Estado ser maior que a Nação, é a perda total de limites dos parlamentares da Câmara e do Senado, hoje prisioneiros de culpas e crimes sem limite.
 
Convenhamos: há algo ainda mais grave do que a invasão daquela noite negra que impede o Poder Legislativo de reagir com altivez: seu ex-presidente Eduardo Cunha está preso e acusado das mais graves suspeições. O presidente do Senado, Renan Calheiros, responde a 12 investigações das quais já é réu em três inquéritos. E há mais de uma centena de deputados e senadores sob o crivo da Justiça, alguns já presos, e muitos com os seus mandatos comprometidos pela prática de corrupção. 
 
Ora, quem pisoteou primeiro aquele chão numa dessacralização como símbolo foram os seus representantes. Exatamente aqueles que ali chegaram levados pelo voto para que lá representassem a sociedade. E o que fizeram? Pisotearam o símbolo que deveriam resguardar. 
 
A invasão da quarta-feira negra é consequência. E mesmo que mereça ser reprimido em nome da ordem pública e do respeito, antes seus representantes fraudaram o compromisso que assumiram diante da Constituição. 
 
Há algo mais grave e mais remoto: os celerados que invadiram a Câmara foram cevados a patos e mortadela antes, em plena Avenida Paulista, na calçada fantasiada de verde-e-amarelo da poderosa Federação das Indústrias de São Paulo. 
 
A direita exacerbada, tão nociva quanto a esquerda sectária, criaram tigres e são estes tigres e não mais as feras petistas, que hoje geram o desassossego nos palácios do Planalto e da Alvorada. Suas criaturas se voltaram contra seus próprios criadores. 
 
Não importa, a essa altura, do ponto de vista das reações coletivas, que o presidente Michel Temer não tenha acusações formais a responder e que o crime da ex-presidente Dilma Rousseff seja de responsabilidade por má gestão e não formalmente por corrupção. 
 
O que está em jogo vai além da falta de legitimidade do governo, posto que ao poder político não basta ser apenas legal. Passa a grave sensação de não enfrentar fortes e fracos com a mesma altivez. É como se estivesse refém...