Serejo: "Ineficiência para combater mosquito já dura 20 anos"

Serejo: "Ineficiência para combater mosquito já dura 20 anos"

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Ano que vem, 2016, vou completar vinte anos criticando a ação dos governos, de Brasília até o Palácio Felipe Camarão, pela ineficiência e até o despreparo do país para enfrentar um mosquito até deixar que se transforme numa grave epidemia. 
 
Às vezes, para não perder o humor - o que nos resta numa civilização ainda tão precária - digo que a única solução é promover uma sessão espírita e convocar o grande espírito de Oswaldo Cruz. Ele morreu em 1917, há quase cem anos, e lutou sozinho, debaixo de todo tipo de contestação, para plantar a semente dos estudos das doenças tropicais como forma de conhece-las para combatê-las. 
 
A Revolta da Vacina acabou sendo sua consagração como médico a lutar contra as doenças coletivas. Naquele tempo, seu desafio era vencer a febre amarela e a varíola. E venceu, de casa em casa, de um em um brasileiro. 
 
Em março de 1996, quando deixei o Diário de Natal, aceitei convite do senador Geraldo Melo para fazer um programa de entrevistas ao vivo na Tevê Potengi. Convidei o médico Luiz Alberto Marinho, com larga experiência em duas etapas: como auxiliar da professora Gizelda Trigueiro - hoje nome do hospital de Doenças Infecciosas - e como seu sucessor no hospital e na cadeira de infectologia do Curso Médico da UFRN. 
 
Ali, há vinte anos, Luiz Alberto já alertava para o risco de um combate que, se não fosse eficaz naquela hora, poderia ter desdobramentos ao longo dos anos. Não deu outra. Estamos hoje com quatro tipos de vírus derivados da Dengue, com doenças como Chikungunya e o Vírus Zica, este causando microcefalia nas grávidas com até três meses e, pior, sem que se saiba o que pode causar ao longo do resto da gravidez, nos nove meses de formação completa do feto. 
 
Praticamente vinte anos depois, os governos Federal, Estadual e Municipal ainda discutem o que fazer e como fazer. O retrato revela a incompetência ao longo de duas décadas e mostra, mais uma vez, que estamos longe da eficiência da esfera pública. 
 
O mosquito, Senhor Redator, não é um problema de exército, de água a descoberto, de fumacê ou de guardas vigilantes e dedicados. É um problema de civilização. O que mais nos falta em 500 anos de história.