Serejo: "Nenhum governo consegue se livrar dele, o prócer"

Serejo: "Nenhum governo consegue se livrar dele, o prócer"

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Ah, o prócer!...

Nenhum governo, Senhor Redator, por mais bem nascido que seja, mesmo forjado no calor da luta, consegue ficar livre da grande e pior de todas as coisas: o prócer.

Tipo humano acima de todas as classificações na escala biológica, ele quase sempre é bem dotado de todas as aptidões, principalmente para as artes do agrado. Não lidera, não tem voto e vive próximo de todos os poderosos, mesmo quando adversários entre si.

O prócer tem riso fácil e neutro, desses que cabem bem em todo lugar e a qualquer hora, porque é incapaz de ser verdadeiro a ponto de desagradar. É jeitoso e solidário diante do infortúnio da crítica que, mesmo verdadeira, incomoda e poderia ser evitada.

É muito interessante vê-lo atuar. Não condena ninguém, mas sabe, diante da crítica incômoda, desqualificá-la. E faz suavemente, sem agredir seu autor. Ouve, e em absoluto silêncio, e depois solta duas ou três expressões fisionômicas entre a dúvida e a reticência.

Se alguém insiste, algum interlocutor mais ansioso ou pouco precavido, pula fácil o obstáculo como um bom jóquei, dizendo, como se desse pouco valor, mas convicto:

- Nem julgaria se foi certo ou errado. Talvez não fosse a hora...

Reconheçamos: é uma perfeição. Quem danado por ser contra a uma precaução em nome de um futuro de dias, meses ou anos? O prócer não julga assim tão facilmente. Só se a crítica for frontal, dura, na lata. Ele anda sempre com os bolsos cheios de reticências...

O prócer é solidário, do contrário não seria um prócer. Algumas vezes ou em alguns casos, o prócer nem precisaria ser. Mas é justamente este o tipo aquele que melhor atinge a perfeição como prócer no jogo de intimidades e proximidades.

Quando o prócer é do tipo que não precisa, é mais autêntico, mas, por isso mesmo, é mais perigoso na eficiência. É prócer por vocação. Como o palhaço, esse profissional que esconde a sisudez e serve a alegria num falso banquete. (VS)