Vós, que podeis atentar...

Vós, que podeis atentar...

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Retomo a publicação do blog dividindo com os leitores o prefácio para “Diário de Bordo – o Legado de Jacques Drouvot”, ficção de Francisco Antônio Cavalcanti, potiguar radicado em João Pessoa, lançado nesta semana no Palácio Potengi, a Pinacoteca do Estado. Trata-se do segundo romance do autor.
 
Vós, que podeis atentar... 
 
“O temor de incorrer em prematuras ou parciais revelações me proíbe a análise do argumento e das muitas e delicadas sabedorias da execução.”
Jorge Luis Borges 
 
Quando fiz a primeira leitura deste novo romance de Francisco Antonio Cavalcanti, senti que ainda estava guardada, em alguma gaveta da memória, uma antiga observação de Jorge Luis Borges: a de que não é absolutamente verdadeira a afirmação de Ortega y Gasset de que já não se poderia “inventar uma aventura capaz de interessar nossa sensibilidade superior”. 
 
Mas, era preciso localizar o texto de Borges para ter certeza. E citar. Encontra-se no prefácio que ele escreveu para o romance A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares, novembro de 1940.
Gasset, observa Borges, considerava impossível uma grande aventura, diante da força do romance psicológico que parecia ocupar a atenção dos leitores. Para ele, seria inútil insistir no prazer das aventuras.
 
A agudeza de Borges é esclarecedora ao discordar desse ponto de vista. Chega a perceber que parecem inaceitáveis, por sua lânguida vagueza, algumas páginas de Marcel Proust e escreve: “Sem saber, resignamo-nos a elas como a tudo que de insípido e ocioso há no dia a dia”. E vai ao mais interessante quando afirma: “O romance de aventura, ao contrário, não se apresenta como uma transcrição da realidade. É um objeto artificial que não comporta nenhuma parte injustificada”.
 
Continua incisivo ao dizer que, apesar de todos murmurarem tristemente sobre a incapacidade de se tecerem tramas interessantes, ninguém se atreve a negar que se alguma primazia literária tem o século XX sobre os anteriores, essa primazia é a das tramas.
 
É justamente essa capacidade de comprovar o argumento de Borges, a principal marca deste Diário de Bordo - O Legado de Jacques Drouvot. Trama envolvente, também construída com momentos de inegável densidade psicológica. No entanto, parafraseando o genial Borges, diria que o temor de incorrer em prematuras ou parciais revelações me impede a análise das muitas e delicadas sabedorias da sua execução. Posso, todavia, dizer que a tessitura deste romance, sem negar as tradicionais matrizes narrativas, ergue uma nova arquitetura no ofício de contar uma história.
 
O leitor está diante de uma aventura que não abre mão dos elementos que seu próprio autor assume por inteiro. É um relato de acasos, mistérios, decifrações, contingências, paixões, cobiça, deslealdades e crimes. Por vezes, e de repente, parece contracenar com o romance policial, sem deixar de ser um romance de aventura que leva o leitor a buscar a chave nas páginas do diário de um navegador.
 
Uma narrativa não precisa acontecer no tempo presente para ser vivida intensamente. Basta ter a força de fatos recentes que reconstruam uma contemporaneidade que não está morta porque se erige nas grandezas e misérias, no desespero e na ambição de cada ser humano. 
 
A tensão transita, neste novo romance de Francisco Antonio Cavalcanti, com aquele mesmo liame entre o passado e o presente de seu primeiro romance, O Violoncelo e, tal como nele, produz no leitor a sensação emocionante de um surpreendente desfecho.
 
A ficção, no plano do romance, não precisa ter acontecido, mas exige que os fatos e personagens tenham plausibilidade e se apresentem ao julgamento do leitor como a verdade que poderia ter ocorrido e, por isso, acontece a cada leitura. Como não viver as vicissitudes do amor que nasce entre Jorge e Nazaré e deixar de se encantar com a delicadeza da magistral cena definitiva de sua paixão? 
 
Francisco Antonio é um romancista apurado na técnica. Sabe construir e soprar vida em cada personagem. Criá-las e, principalmente, fundá-las como seres humanamente reais e compreensíveis em seus conflitos, culpas, glórias e infortúnios. Mais do que isto: sabe retratá-las nas suas individualidades. E circunstanciá-las para que não desabem como meros artifícios, mas sejam naturais invenções da criatividade e nunca figuras inventadas, pois não fariam parte da realidade mágica e ao mesmo tempo genuína de uma humanidade romanesca.
 
Uma cena marca mais fundamente, como síntese perfeita, esta nova ficção de Francisco Antonio Cavalcanti, elaborada com raro esmero, coisa de um grande escultor que apenas retira o excesso de mármore e liberta as vidas para que todos andem, gritem, silenciem. O encontro de Fabrício com Sofia, que começa numa ligação telefônica e segue no diálogo diante do cenário de um cofre cheio de segredos e desejos, vai a um surpreendente momento de êxtase e descobertas.
 
Ali se deslinda definitivamente o jogo das chaves que se entrelaçam ao longo do romance. A chave do diário de bordo de Jacques Drouvot, do ouro do seu tesouro que parecia ser seu único legado e precisava ser decifrada, e a chave da paixão, o outro legado, o inesperado. Aquele que rompe o tecido da história que parecia chegar ao fim e a faria ficar inconclusa. Como a própria vida, a reunir todos os tempos – o ontem, o hoje e o amanhã.
 
Para Fabrício e Sofia, aquela mensagem fora escrita na última página do diário de bordo de Jacques Drouvot. Porque só eles, ausentes ao longo de toda a história, na verdade são os iluminados pelo clarão da mensagem cifrada naquele instante de transcendência muito bem dissimulado num encontro aparentemente casual. 
 
São eles que merecem as centelhas que acendem, no espírito de cada um, a chama da paixão que talvez seja, por isso mesmo, o maior tesouro de Drouvot.
Porque todo grande amor é uma aventura e seu maior tesouro é vivê-la. 
 
Natal, verão de 2015
 
Vicente Serejo