Vamos falar da Patagônia?

Vamos falar da Patagônia?

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Vamos falar da prova da Patagônia?

Já vou começar mandando a real. Fiz uma péssima prova.

Pra quem não sabe, em abril corri 44,5Km na Patagônia Argentina.

Muito antes de começar a prova eu já sabia que não era o meu dia.

Eu andava treinando forte, estava muito bem no treinamento, bom desempenho em todos os treinos, disciplinada, focada, cuidando da alimentação, uns 40 dias antes da prova eu me lesionei. Não foi uma lesão grave, mas fiquei com a famosa lesão da pata de ganso. Passei 6 dias sem treinar e logo depois já estava boa. Até então eu pensava que estava. Mas, quando voltei para os treinos, não conseguia render, não tinha mais tanta energia, me sentia cansada, sem estímulo, mas mesmo assim, continuei fazendo minha planilha, e faltando 20 dias para a prova me lesionei novamente, dessa vez era o glúteo médio que tinha se comprometido. Fiquei com muito receio porque esse realmente machucou mesmo. Fora isso, ainda torci levemente meu pé. Então, tinha comprometido osso, músculo e articulação. Passou pela minha cabeça desistir da prova, mas eu iria termina aquela prova nem que fosse me arrastando. E eu só terminei a prova porque fui preparada para caminhar muito.

Eu cheguei à Patagônia sem nenhuma dor. Não tinha dor no pé, nem no joelho e muito menos no glúteo médio, tinha feito muita fisioterapia e minha planilha não estava tão puxada. Porém, é muito diferente correr 8km e 44km. Por isso, decidi tomar um anti-inflamatório mais forte antes de sair para a prova. Eu não queria sentir dor. E de fato, não tive nenhuma dorzinha nessas lesões. Porém, a base do remédio que tomei era lactose e eu tenho a síndrome do intestino irritável e não posso tomar lactose de forma nenhuma. Ou seja, o resultado foi desastroso. Passei a prova com muita dor de estômago. Não consegui comer quase nada, gel de carboidrato, só em pensar eu me arrepiava. Até a ingestão de água ficou complicada. Tive uma desidratação, minhas mãos incharam.  Quem tem essa síndrome sabe como é difícil encarar uma crise. Aos poucos, minha energia foi acabando, e a segunda parte da prova fiz revezando corrida leve com caminhadas.

Mas, quero dizer que a prova foi sensacional. Passei muito tempo na trilha correndo sozinha, sem ninguém por perto e eu AMO quando isso acontece. Momento de reflexão total, contato incrível com a natureza, sensação de liberdade indescritível. E o mais foda pra mim, foi minha cabeça o tempo todo incentivando meu corpo, minha cabeça não é boa, mas nesse dia ela foi preparada para assumir o controle. E isso foi impagável.

Terminei a prova 45 minutos a mais do que o ano passado. Tenho certeza que trenei o suficiente para fazer 45 minutos a menos, mas não deu. Não dessa vez. E agradeci a Deus por ter me dado saúde para encarar quase 45km, com mais de 3 mil metros de altimetria. Me senti muito honrada e feliz por estar presente naquele momento, naquela corrida, naquele lugar, com aquelas pessoas, mesmo com todos os contratempos que tive. E me senti plena por ter escolhido a corrida como o esporte da minha vida.

Quem venham as próximas.