Vicente Serejo: o erro do Legislativo na Lava Jato

Vicente Serejo: o erro do Legislativo na Lava Jato

Compartilhe esse conteúdo

593f099b1d41c80601237577.jpg

Vicente Serejo: a alegria e a tristeza de um circo de bairro 

Pior do que os efeitos morais e caudalosos da Lava Jato será o aniquilamento do poder da classe política. Dizem que nossas instituições estão funcionando, inclusive na economia, menos o Congresso Nacional na manutenção de sua altivez. E não está porque faltou a força de um líder capaz de conduzir o Senado e a Câmara a manter a inviolabilidade da fronteira em relação aos outros poderes, Executivo e Judiciário, garantia do equilíbrio indispensável à vida democrática.

A altivez, explique-se melhor, não como um escapismo dos que fogem à responsabilidade do cumprimento da lei e das decisões judiciais, mas da manutenção dos ritos e liturgias sem as quais não se protege o estado democrático de direito. Investigação, sim. Para os que enfrentam as graves suspeições, mas sem que o suspeito seja linchado num espetáculo de delações bem antes do julgamento transitar em julgado, até como forma de evitar a difamação feroz e descontrolada. 

O Poder Legislativo cometeu o erro de não se colocar acima dos mecanismos de pressão muito fortes nas contrações políticas. E por não vencer o medo de ser acusado de conivência, não cumpriu sequer o dever de elevar a foz e manter os limites. Cedeu e cedeu perigosamente aos ditames dos acusadores, como se fosse justo prender e cassar mandatos conquistados pelo voto ainda na fase de investigação como um rebanho de bois mansos caminhando para o matadouro.

Basta lembrar que na sessão do Senado para autorizara prisão e a cassação do senador Delcídio Jurandir, a única voz a se erguer com vigor foi a do senador Jader Barbalho, logo desqualificado em plenário pela suspeição que enfrenta. Pior: foi sucedido pelo senador Ronaldo Caiado que ao invés de acatar a investigação, mas respeitando-se o mandato até o julgamento final, defendeu a autorização num discurso sem consciência política da gravidade daquela hora.  

Um Congresso assim, sem capacidade de erguer uma grande e forte retórica em nome do próprio estado de democrático de direito e de prerrogativas sem as quais não é possível manter o equilíbrio e a independência dos poderes, não tem como reagir. Deixou, por sua própria omissão e comodismo que os fatos rolassem diante da cena nacional e que a prática impusesse um novo ordenamento jurídico nascido da jurisprudência do medo que amordaça a voz e aprisiona o gesto.

O Poder Legislativo paga o preço de ter se transformado numa massa de manobra urdida no escambo das benesses e vantagens na relação pouco transparente com o Poder Executivo e no monstro da governabilidade a esconder o fisiologismo sem limites. Os partidos, de aliados, hoje são cúmplices, além de sócios dos mesmos vícios. Não tiveram altivez indispensável para manter a trincheira e hoje, aturdidos, dormem com o fantasma da voz de prisão. Reagir? Agora? Como?